ARQUIVO HISTÓRICO

O NOSSO NADADOR MAIS RÁPIDO DO MUNDO – PARTE II

Relatório Oficial da Olimpíada

Os três medalhistas dos 100m em Roma: Larsen, Devitt e Manoel dos Santos
Relatório Oficial da Olimpíada

Medalhistas se cumprimentam
Relatório Oficial da Olimpíada

Desfile de abertura da delegação brasileira em Roma. Adhemar da Silva, porta bandeira, seguido do Major Padilha
Relatório Oficial da Olimpíada

Estádio da piscina em Roma

Pedro Junqueira
Publicado em 22/04/2008

Mais um Pan Americano
No ano seguinte ao Sul-Americano de Montevideo, veio a primeira viagem para os Estados Unidos. As camas, na vila olímpica montada na universidade de Chicago, eram daquelas de colchão mole americano, estranhas e desconfortáveis para alguém que cresceu dormindo em cama dura de colégio de internato. O corpo dolorido e mal dormido, e as costas que não empinavam mais, afetaram o equilíbrio do nado. Manoel dos Santos, a grande esperança de medalha da natação brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 1959, não passou de um quarto lugar nos 100m livre, nadando acima dos 58s, quando as expectativas giravam em torno dos 56s. Seu currículo de nadador em matéria de Pans ficou, para sempre, aquém das possibilidades do seu talento. Depois do México em 55 e Chicago em 59, Manoel não chegaria até São Paulo em 63. Largou sua carreira no topo, em 62, e foi trabalhar pra ganhar a vida.
Um parêntesis: O Pan em Chicago foi um massacre pelos americanos. Nada menos do que 236 medalhas para os gringos, sendo 115 de ouro, 69 de prata e 52 de bronze. Os relativamente fracotes argentinos, segundo colocados, ficaram com 39 medalhas, sendo 9 de ouro, 19 de prata e 11 de bronze. A participação brasileira foi tímida. O confiável herói Adhemar Ferreira da Silva encerrou sua década de títulos máximos internacionais com o tricampeonato pan-americano (ele já era bicampeão olímpico). O jovem jogador de futebol Gérson, ainda de cabelo, defendeu, sem sucesso, nosso escrete olímpico. O outro garotão, o boxeador Eder Jofre, trabalhou de sparing na competição. Nossa natação foi um fiasco absoluto, repetindo a pobre performance de quatro anos antes no México. Não levamos sequer medallhas de revezamento, ficando sempre atrás do Canadá e México. Os americanos, em compensação, em plena preparação para se vingarem dos australianos na olimpíada no ano seguinte, tomaram conta do pódio natatório em Portage Park, mesmo local onde aconteceriam, treze anos mais tarde, as eliminatórias americanas para a olimpíada de Munique e onde Mark Spitz bateria vários recordes mundiais a caminho da glória máxima na Alemanha. Na natação do Pan de 59, foram raras as provas em que os americanos não levaram do ouro ao bronze, naqueles tempos quando os países podiam colocar três representantes por prova, e, no feminino, foram muitas as provas com novo recorde mundial estabelecido por alguma americana.
Mas o acontecimento principal do Pan foi protagonizado por brasileiros. Manoel dos Santos, isolado com os outros nadadores brasileiros na vila olímpica, só viria a ficar sabendo deste escândalo abafado quando já tinha tomado o Constellation de volta para o Brasil. Quase no final das competições, o remador brasileiro Ronald Duncan Arantes, tio do grande ex-costista Rômulo Arantes Filho e irmão do ex-técnico de natação rubro-negro Rômulo Arantes, ambos já falecidos, foi encontrado morto, baleado e com uma arma ao seu lado. A tragédia nunca foi elucidada por inteiro, mas a versão que vingou apontou para causas folhetinescas. Um tenente brasileiro, saltador de hipismo e membro da delegação, teria sido vítima de um adultério e mandante ou executante do assassinato. Sua esposa, presente em Chicago, teria sido amante de Ronald. Ainda hoje, os septuagenários mais por dentro dos meandros deste crime se recusam a comentar a respeito.
Seis meses depois, em fevereiro de 1960, foi a vez do campeonato sul-americano em Cali, na Colômbia. Na relativa altitude da cidade andina, os tempos não foram muito bons. Mas Manoel dos Santos cumpriu seu papel razoavelmente, levando o ouro de bicampeão dos 100m livre e liderando nossos revezamentos para conquistar mais dois ouros e uma prata. A peleja contra os argentinos foi muito acirrada, tanto no feminino quanto no masculino. No final, suado, trouxemos o primeiro bicampeoanto da história. Cali viu o aparecimento daquele que iria se consagrar, durante a década de 60, como o maior nadador de Sul-Americanos de todos os tempos, o portenho Luis Alberto Nicolao. Aos 15 anos, Nico, futuro recordista mundial dos 100m borboleta e, juntamente com Alberto Zorrila, melhor nadador argentino da história, conquistou seu primeiro ouro individual na sua modalidade mais famosa.
Em 1960, Manoel dos Santos já representava o Pinheiros. Mas ele nunca treinou sob a orientação de Sato, o conhecido técnico pinheirense. Manoel continuou sempre seguindo as diretrizes determinadas por Hirano, seu mestre de Santos. Ele usava a piscina do Pinheiros, e às vezes a do Corínthians, durante o verão e, no inverno, descia a serra e dava suas braçadas no Clube de Regatas Internacional. Em julho de 60, durante os preparatórios finais pré-olímpicos, no Rio de Janeiro, Manoel quebrou convincentemente seu recorde sul-americano dos 100m livre, marcando 55s6. Este feito o posicionou como forte concorrente à medalha olímpica em Roma. Seria o equivalente do Césão nadar em 47s9 daqui duas semanas no Maria Lenk.
A Única Olimpíada
Em agosto, a equipe brasileira de natação partiu para a Europa. Primeiro, uma parada sem sentido em Portugal, para os Jogos Luso-Brasileiros. Ou melhor, com sentido político, determinado pela chefia militar nos esportes olímpicos brasileiros, típica daqueles tempos. O Major Padilha era nosso eterno chefe de delegação. Em Lisboa, numa piscina com água a 13 graus de temperatura, nossos nadadores competiram contra um time inexistente, que sempre foi a natação de Portugal. O resultado foi uma amigdalite em nossa estrela maior, único nadador brasileiro até então a chegar numa olimpíada com chances reais de escapar do anonimato. Manoel seguiu de Lisboa, sob efeito de antibiótico, aterrisou na cidade aberta e foi para a vila olímpica ficar de molho por mais um dia, longe da piscina. Depois, seriam mais três dias pra se recuperar antes das eliminatórias dos 100m livre, sempre a prova de abertura do programa olímpico naqueles tempos.
Roma, como não poderia deixar de ser, também impressionou a todos com o Estádio Olímpico e vários eventos sendo disputados nos locais da antiguidade. O estádio aquático era imponente, mas as mesas usadas para massagem ainda eram as tradicionais mesas de ping-pong. Numa sexta-feira, dia 29 de agosto de 1960, às 8h30 da manhã, tiveram início as competições de natação com as eliminatórias dos 100m livre masculino. Manoel dos Santos, nadando na raia 4, ganhou a terceira série, com 56s3. Foi o terceiro empatado melhor tempo no geral. Vinte e quatro nadadores passaram para as semis. Tanto Nicolao, como o outro brasileiro, Fernando Nabuco de Abreu, ficaram de fora. Para se classificar foi preciso 58s2. À noite, nas semis, Manoel voltou a vencer, empatado, na mesma terceira série, na mesma raia 4, com o mesmo tempo de 56s3. No geral, agora, ele ficou em quarto lugar empatado. As primeiras três posições foram para os americanos Lance Larson e Bruce Hunter, e o australiano John Devitt, com os tempos de 55s5, 55s7 e 55s8, respectivamente. Para se classificar para a final foi necessário 56s5, tempo do canadense Richard Pound que, muitos anos depois, veio a se tornar famoso como o xerife da WADA, a agência anti-doping mundial.
O Ouro Olímpico Que Escorregou Pelas Mãos
No dia seguinte, sábado, às 9h10 da noite, chegou o momento da final. Manoel dos Santos foi escalado para a raia 6. Ele sabia que só teria alguma chance se nadasse um segundo mais rápido do que na véspera. Deu-se o tiro de largada, a saída chapada daqueles dias, e foram quase 40 metros sem respirar. A prova da vida dele. Quando o bom senso gritou e ele se virou para direita para a primeira puxada de ar, Manoel não viu ninguém. Hunter na raia 5, Larson na 4, e Devitt na 3, estavam fora do radar da rápida primeira olhada. Certamente não estavam na frente. Só poderiam estar atrás, e não era pouca a diferença. Aquilo foi desnorteante. Mais algumas braçadas até que Manoel localizasse a posição dos oponentes. Neste ínterim, muito se passou pela cabeça dele, inclusive a possibilidade de ter escapado, tamanho o susto que levou. Nos segundos cruciais de preparação para a virada, virada esta mais complicada em 1960, devido à exigência de toque de mão antes da cambalhota e aos oclinhos inexistentes, Manoel estava um tanto quanto perdido e só foi se achar quando bateu, inesperadamente, seu antebraço na borda da piscina. Quem estava lá viu. Aquele assombro de velocidade bateu bem na frente nos 50m, virou por cima estabanadamente, e saiu de volta atrás. No desespero do azar que surge quando menos se espera, só restou a ele acelerar tudo que tinha novamente. Na linha dos 80 metros, Manoel tinha recuperado a liderança. E ali chegou a hora de pagar o preço do imprevisível. Apesar dele sustentar que morreu nos 20 metros restantes, a diferença final foi de dois décimos de segundo.     O ouro envolveu uma das decisões mais conturbadas da história olímpica da natação. Mas Manoel não era parte da controvérsia, já que seu bronze tinha sido claro, no tempo de 55s4, novo recorde sul-americano.
Três juízes de primeiro lugar e mais três de segundo lugar se contrariaram entre eles na decisão de quem havia ganho a prova, Devitt or Larson. Os velhos cronômetros eletrônicos foram consultados e deram a vitória a Larson, 55s1, contra Devitt, 55s2. As precárias fitas de papel usadas então, mas não oficiais, confirmaram Larson quatro polegadas na frente. Mas o juiz principal da competição interveio na polêmica, mudou o tempo de Larson para 55s2, e deu o ouro para Levitt. Apesar de Larson ter aceito a decisão final cavalheirescamente, dentro do espírito olímpico daquelas eras, os Estados Unidos nunca engoliram esta e nunca deixaram de protestar.
Manoel dos Santos foi para o pódio feliz com seu bronze, assim como o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro o fez em 2004, em Atenas. Dando continuidade ao pequeno legado olímpico deixado por seu ídolo Tetsuo, ele se contentou com uma medalha olímpica. Mas em pouco tempo, ele perceberia que poderia mais. E mais seria o status de mais rápido do mundo. Esta segurança adquirida foi condição sine qua non para que ele galgasse mais alto.
Talvez o único nadador brasileiro até hoje que entrou numa final olímpica com a convicção de matar todos seus adversários, sem exceção, foi o Ricardo Prado, em 1984. Uma prata, neste caso, pode ser uma tragédia. Mas as expectativas quase que determinam os resultados. Isto vale para nossa trinca de excepcionais nadadores rumo a Pequim.
Manoel dos Santos não pôde fazer mais nada em Roma. O revezamento brasileiro 4x100m medley não chegou nem perto das finais e Manoel tinha sido poupado, contra a vontade dele, das eliminatórias. Terminadas as competições de natação, era hora de voltar para casa. A doutrina militar não permitia que os nadadores permanecessem em Roma e assistissem o resto dos jogos olímpicos. Manoel foi privado, assim, de admirar Abebe Bikila entrando descalço no estádio olímpico no cair da noite romana.
Semana que vem a parte final sobre Manoel dos Santos, seu último ano e meio, quando ele atingiu o ápice de sua performance como nadador.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil
 

Voltar
Índice da seção


Comente agora!

Nome:

OBSERVAÇÃO: A publicação ou permanência deste texto poderá ser vetada a qualquer momento pela direção da Best Swimming


Quem já comentou...

07/12/2010 09:56:43 » REMY PEDROSO JACOMASSI

Caro editor,nadei na década de 50/60 NO Palestra de S.J.Rio Preto,época de ouro da natação juvenil,que originou grandes nadadores-Manoel dos Santos,Antonio Carlos Montanhez,Daltely Guimarães,João Gonçalves,Egberto,Sureia Ismael,Mobiglia,etc,etc,e toda a equipe de natação do PALESTRA-e sinto que esta fase da história permanece esquecida em livros.Pretendo escrever sobre o assunto,estou pesquisando,e gostaria de manter contato.Meu email-remyjacomassi@hotmail.com-Também joguei Polo Aquático pelo CAP-PAULISTANO de São Paulo-Décadade 60-Técnco VAVÁ-e pelo BTC-BAURU TENIS CLUBE-Técnico CLAUDINO CAIADO DE CASTRO.Parabéns pela iniciativa.

15/09/2010 09:47:04 » kellen

que tal falar sobre:RONALD MATTHES?

09/12/2009 02:38:38 » josué ferreira

Sr. Nadei na década de 60 pelo Guanabara do Rio! Ví o Manoel dos Santos nadar e treina em nossa piscina para os Campeonatos sa época. Êle nadava com o corpo quase fora da água! Em Roma ele perdeu porque passou muito forte nos 50 metros. Em 1960 fazia 56" nos 100 metros livre. Escrevi um livro sobre natação no qual falo no Hirano com sua equipe do Paulistano fazendo tempos inacreditáveis para a época! O Norio Ohata era um deles! Meu email é: acajutuba@acajutuba.com

10/10/2009 15:30:20 » Sérgio Frota

Prezado Editor Parabens pelo site e pelo material histórico. Eu vivi a época do Manuel dos Santos e do Hirano como nadador. Nadei pelo Corinthians na década de 1960 sob o comando do Sr. Hirano e hoje ajudo ao Departamento de Natação do Corinthias como Diretor. Antes de nadar pelo Corinthians eu fui nadador do Palestra de São José do Rio Preto que era uma equipe muito forte sob o comando do Prof. Décio Lang (o Pedro Junqueira deve conhecer). Hoje estamos liderando um movimento de resgate e homenagem à imagem do maravilhoso Prof. Décio Lang e para isso mantemos um blog cujo endereço é "encontrocomdeciolang.wordpress.com". Esse blog contem material da época e conclama nossos companheiros a participarem da festa de reencontro dos Amigos que faremos em homenagem ao Prof. nos dias 27 e 28 de novembro. Essa será a 2a. edição, a primeira realizada a 23 de Novembro do ano passado foi emocionante. Peço que compartilhe essa informação com o Pedro, a ambos que vejam o blog e a você que, se possivel recomende esse nosso trabalho junto aos seus leitores. Faz parte dos primódios dessa natação vitoriosa de hoje. Grato Sérgio Frota


Leia outros textos sobre este mesmo assunto:
O NOSSO MAIS RÁPIDO NADADOR DO MUNDO – PARTE I
O INESQUECÍVEL TESTUO - PARTE II
O INESQUECÍVEL TETSUO - PARTE I
A CARREIRA DE NOSSO JOHNNY WEISSMULLER - PARTE II


Warning: include(../final.php) [function.include]: failed to open stream: No such file or directory in /home/bestswim/public_html/beijing2008/conteudo.php on line 358

Warning: include(../final.php) [function.include]: failed to open stream: No such file or directory in /home/bestswim/public_html/beijing2008/conteudo.php on line 358

Warning: include() [function.include]: Failed opening '../final.php' for inclusion (include_path='.:/usr/lib/php') in /home/bestswim/public_html/beijing2008/conteudo.php on line 358