ARQUIVO HISTÓRICO

O NOSSO MAIS RÁPIDO NADADOR DO MUNDO – PARTE III (FINAL)

Arquivo Pessoal Manoel dos Santos

Manoel dos Santos no Guanabara no dia do recorde
Arquivo Pessoal de Manoel Santos

Manoel dos Santos e o Rei Pelé
Arquivo Pessoal de Manoel Santos

Manoel dos Santos e Weissmuller, Tarzan, o rei das selvas
Arquivo pessoal de Manoel dos Santos

Manoel com o pai e Hirano logo após o recorde

Pedro Junqueira
Publicado em 30/04/2008

De volta de Roma, Manoel entrou no período típico de relaxamento pós-olimpíada. Perdeu um pouco a forma. Mas no seu caso e na sua época ainda se fazia valer mais o talento do que uma base de treinamento de ciclo longo. De volta à piscina, a recuperação era rápida. O alerta veio numa inesperada derrota de dentro do Brasil. Na azarada piscina do Vasco da Gama, no campeonato brasileiro, no começo de 1961, Manoel ficou com a prata nos 100m livre, marcando 57s8. O vencedor, um segundo inteiro na frente, foi o grande nadador do Paulistano, Athos Procópio de Oliveira, que, além de ter sido um bom nadador do livre, foi nosso melhor costista disparado na primeira metade da década de 60.
A Viagem ao Japão
Os treinamentos voltaram a se intensificar. A motivação para tanto foi a mesma que hoje em dia é parte da rotina de nossos melhores nadadores mas, naquela época, era uma raridade. Manoel foi convidado para participar de uma série de competições internacionais de alto nível, primeiro no Japão, e depois, acidentalmente, nos Estados Unidos. Aqueles anos foram os últimos nos quais a reputação do Japão na natação ainda trazia anualmente os mais talentosos convidados internacionais, principalmente americanos, para participar do campeonato nacional japonês e de outras competições de exibição durante o verão japonês. Esta tradição vinha desde a década de 30, quando japoneses e americanos dominavam completamente o cenário natatório.
Depois de uma ginástica burocrática e política com os cartolas paulistas, que iria ter seu preço cobrado no devido tempo, Manoel partiu para o Japão trazendo consigo Hirano. Lá, ele e o argentino Nicolao, o outro convidado, se juntaram à equipe americana representando a nata mundial, e partiram para um tour de três competições nas ilhas nipônicas. Nicolao e Manoel, por solidariedade geográfica, mas também por pragmatismo de sobrevivência, foram companheiros próximos durante aquela estada. Como muitas vezes acontece com brasileiros e hispânicos no exterior, um viu no outro a ilusão de ser bilingue, quando na verdade a comunicação se dá através de uma terceira “língua”, um arrastado portunhol. Mas o que ninguém sabia era que ali, entre os dois jovens latinos, um pouco perdidos no oriente e a reboque dos famosos americanos e japoneses, estava guardada escondida metade dos recordes mundias de velocidade na natação, que em breve seriam revelados para o mundo inteiro de dentro da piscina do Guanabara.
Manoel deu conta do recado dele com louvor. Em Tóquio, no campeonato japonês, ele ficou em primeiro nas eliminatórias, semis e final, com os tempos de 55s1, 55s2 e 55s3, respectivamente. O maior velocista americano, Steve Clark, e japonês, Yamanaka, ficaram pra trás. Os 55s1 representaram novo recorde sul-americano. Naqueles tempos a homologação de recordes levava semanas e, não raro, estes eram quebrados antes de oficializados. Foi o que aconteceu no Japão, porque Manoel levou o ouro também nas competições em Nagóia e Osaka, sendo que nesta última ele abaixou o recorde sul-americano mais um décimo, para 55s cravados, a melhor marca da história até então em competições internacionais. A viagem ao Japão tornou Manoel conhecidíssimo entre nadadores e técnicos americanos e a imprensa esportiva especializada. Foi a constatação de que aquele furor dos primeiros 50 metros na olimpíada de Roma não era acidental. Aliás, alguns passaram a prever um recorde mundial, caso Manoel melhorasse sua única fraqueza, a complicada virada olímpica daqueles tempos.
Para Manoel, o mais marcante da viagem foi a experiência de conviver com a honestidade e a segurança proporcionadas pela sociedade japonesa. Uma vez ele esqueceu uma sacola dentro de um ônibus. Ao retornar ao veículo horas depois, ele encontrou o motorista cochilando de cansaço por fazer a guarda daquela bolsa. Numa outra vez, Manoel ficou impressionado com um evento que ocorreu com um outro integrante da equipe de nadadores viajando pelo Japão, o legendário peitista americano Chet Jastremski, criador do famoso estilo homônimo, uma das primeiras estrelas de Doc Counsilman em Indiana, batedor voraz e sequencial do recorde mundial dos 100m peito na época, inclusive nas competições no Japão, trazendo a marca de 1m11s4 para 1m7s5 num período de seis semanas. Chet esqueceu sua novíssima máquina fotográfica dentro do trem do metrô. Correram para avisar a polícia. Os policiais, tranquilos, pediram somente o endereço do hotel da delegação. No dia seguinte, trouxeram e entregaram, em mãos, a máquina intacta de Chet. 
Passagem Pelos States
Na volta do Japão, via Los Angeles, Manoel resolveu dar uma parada antes no Havaí. As ondas havaianas sempre exerceram um certo fascínio no imaginário dos brasileiros. Assim como o tenista Guga, depois de virar número 1 do mundo, foi encarar as ondas grandes das ilhas, Manoel dos Santos o precedeu nesta aventura. Só que o floripano é surfista da gema, e Manoel, apesar de ter adotado Santos como sua cidade de treinamentos e ter sido o peixe que era, vinha lá de Andradina. O resultado foi uma canelada desagradável em uma daquelas pranchas impossíveis.
Vários dias depois, Manoel, bronzeado, relaxado e destreinado, desembarcou em Los Angeles. Dada a sua recente fama, ele foi convidado para participar do campeonato americano naquela cidade e topou a honra. No dia 18 de agosto de 1961, Steve Clark, derrotado sucessivamente por Manoel no Japão, venceu a final dos 100m livre, sob estrondorosa torcida. Seu tempo de 54s4 batia a marca mundial prévia de 54s6, do australiano John Devitt, desde janeiro de 1957. Manoel não foi de todo mal, mas ficou em quarto lugar, nadando acima de 55s. Ainda dentro da piscina, ele foi fotografado cumprimentando Clark, para sair na edição da revista Swimming World de setembro de 1961. Só entre os dois, rolou uma promessa ou ameaça amiga. Manoel afirmou categoricamente que, ao voltar para o Brasil, bateria aquele recorde mundial. Clark escutou e não ousou duvidar, como revelaria no futuro. O brasileiro já estava há algum tempo perto demais do topo do mundo para não acreditar ser possível a façanha. Eis aí a diferença psicológica crucial que faz um recordista mundial.
O Recorde Mundial de Hora Marcada
Manoel aterrisou no Brasil, tirou as fotos clássicas, de bouquet de flores na mão, na escada do avião e, sem perda de tempo, partiu para os treinamentos com Hirano. Ao solicitar à CBD e FINA a tentativa de quebra de recorde, ele tornou sua promessa pública e deu um passo a frente com a coragem de quem vai ter que se expor perante a todos. O desafio era nada menos do que provar ser o mais rápido nadador do mundo. Mas a maior pressão e motivação vinha do seu compromisso com três pessoas. Com o técnico Hirano, com seu pai e consigo mesmo.
Na segunda-feira, 18 de setembro de 1961, treinado como nunca antes, Manoel partiu de Santos, de automóvel, como se dizia na época, com Hirano no volante, rumo ao Rio de Janeiro. Aqui a associação é com o nosso ás da Fórmula Um, Nelson Piquet, que pegava a estrada, no volante, de Brasília a Interlagos, chegava lá, corria o GP no dia seguinte, e na sequência, pegava a estrada de volta pra casa. Imaginem a cena, que não deve ter acontecido mas teria sido possível: Hirano e Manoel subiram a serra, pegaram a Dutra, e às tantas, Hirano entrou num posto para abastecer seu Ford 47. Manoel foi ao banheiro ou tomar um cafézinho. O frentista chegou na janela: “Completa doutor?” Hirano: “Pode completar, da azul” Frentista: “Vai até o Rio?” Hirano: “É, temu que resolver um probleminha lá, este rapaz que está comigo vai bater o recorde mundial da prova mais importante da natação”.
No Rio, os dois se instalaram por conta própria no Hotel Paysandu, no Flamengo. Estavam preparados para gastar duas diárias cada um, além das refeições de prato feito do hotel. Nos jornais, estava anunciado a data da tentativa para terça-feira, no Guanabara ou Vasco da Gama. Mas o dia seguinte acabou sendo usado para treinamento e adaptação na preferida piscina vizinha ao Mourisco. O dia D foi marcado para quarta-feira, 20 de setembro de 1961.
No dia seguinte, um pouco antes das 4h da tarde, os dois chegaram no Guanabara. Manoel, barbado, uma cisma dele, como dizia. As dependências do clube estavam quase desertas. Ele aqueceu, deu seus tiros de 25, e foi pro vestiário para uma rápida massagem, executada pelo técnico. Ao sair do vestiário, a ficha caiu. Três mil pessoas apareceram do nada, ainda em tempos de ternos e até algum chapéu, para torcer e checar se aquilo era de verdade mesmo. Neste momento, perante tal platéia, Manoel deve ter decidido, um pouco inconscientemente, que usaria a primeira tentativa pra acalmar os nervos. Afinal, ele tinha três chances. Mas como ele racionalizou tal decisão foi com a desculpa do encaixe da virada, seu ponto fraco. Bater a mão na borda e dar a cambalhota olímpica, sem oclinhos, nas águas turvas do Guanabara, era como acertar a faixa do salto triplo. Para Manoel, era necessário mais de uma chance.
E assim foi. Na primeira tentativa ele ficou na virada. Sob um silêncio do público duvidoso, ele desceu novamente pro vestiário com Hirano, um pouco arrependido pelo bom tempo de passagem nos 50 metros. Mas aquilo surtiu tanto o efeito relaxante desejado como a raiva necessária. Com todo o apoio psicológico de Hirano, Manoel voltou pra piscina quinze minutos depois, lá pelas 5h da tarde. A torcida, um pouco constrangida, calou-se como num enterro. Dado o tiro, Manoel largou de chapada na raia 4, fotografia dos jornais no dia seguinte, virou sem percalços os 50m em 25s6, levantou a torcida nos 75m em 38s5, e bateu na borda de chegada com um tempo incógnito a todos, por alguns segundos. O grupo de cronometristas oficiais era composto pelo triunvirato da natação brasileira, os conselheiros técnicos Júlio Delamare e Maurício Beckenn e o cartola Ruben Dinard de Araújo. Após um breve momento de consultas entre os juízes e apreensão geral do público e do herói dentro d’água, Delamare empunhalou o revolver para cima e, com três tiros de festim, confirmou a nova marca mundial, 53s6. O Guanabara entrou em delírio. O momento mais emocionante da carreira de Manoel se deu a seguir. Escondido entre o público presente, tendo viajado sorrateiramente lá de Andradina, depois de negar sua presença no dia da tentativa, surgiu de surpresa o pai de Manoel. Numa fotografia, ou flagrante, como diziam, está registrada a grande felicidade do filho, abraçado ao pai, de um lado, e ao técnico e mestre, do outro.
O recorde mundial durou três anos exatos, até ser batido pelo francês Alain Gottvalles, falecido este ano. Como recorde brasileiro e sul-americano, a marca durou quase onze anos, até ser batida por Ruy Tadeu A. De Oliveira, em Arica, em 1972, longevidade esta que superou as seguintes de Jorge Fernandes e Gustavo Borges, e só foi mais curta do que a de Zorilla na década de 20 e 30. A repercussão nacional e internacional foi imediata, desde as matérias da Gazeta ou reportagem da Manchete, até a cobertura na imprensa francesa, liderada pelo L’Equipe. Técnicos e nadadores nos Estados Unidos, incluindo Clark, e Japão se mostraram pouco surpresos com o tempo de Manoel, de certa forma esperado por todos. Não faltou quem o comparasse a seu grande ídolo de infância, Johnny Weissmuller.
Compromissos da Fama
Ainda no dia seguinte do recorde no Rio, Manoel teve que esticar o orçamento e entrar na terceira diária do Hotel Paysandu. Vieram os anúncios de homenagens e convites. Ele esteve na Marinha e na Escola Nacional de Educação Física. Belo Horizonte, Santos, Recife e Fortaleza requisitaram a presença do recordista. Rio e São Paulo ameaçaram lotar a agenda do nadador. Manoel só queria saber de ir pra Andradina comemorar com a família e amigos, e foi o que ele fez. Logo ele aprenderia a dura realidade da politicagem brasileira, com suas passagens aéreas e diárias de hotel prometidas mas nunca pagas ou restituídas.
Alguns compromissos eram inevitáveis. Na semana seguinte ao recorde mundial, Manoel voltou ao Rio, desta vez de avião, com passagem mandada pelo próprio presidente da república, para as cerimônias de abertura dos Jogos de Primavera. Quem foi buscá-lo no aeroporto, de kombi, foi Maria Lenk. Outra cena de emocionar a imaginação: nossos dois recordistas mundiais, Maria Lenk, aos 46 anos, no volante e, ao lado, Manoel dos Santos, com menos da metade da idade da motorista, margeando pela avenida beira-mar. No Fluminense, levaram Manoel à tribuna de honra, para cumprimentar Jango. Mas como o nadador estava de camisa de manga, sem gravata e paletó, os aspones do presidente ameaçaram impossibilitar o encontro. Percebendo que quem sairia perdendo seria o próprio Jango, deram o famigerado jeitinho brasileiro e, logo em seguida, os fotógrafos registraram o aperto de mão entre nosso recordista e nosso presidente parlamentarista. Em São Paulo, sem ter entrado na piscina por uma semana, Manoel foi ao Palmeiras bater o recorde paulista (não existia o brasileiro) dos 50m livre, em frente dos jornalistas, a pedido do homem forte da Federação Paulista, Nicolini, que tinha ajudado viabilizar a ida de Hirano ao Japão no ano anterior.
Com o tempo, a fama e o sucesso atraíram outros famosos. Manoel conheceu Weissmuller nos Estados Unidos e orientou Pelé, seu vizinho e amigo em Santos, ajudando-o a passar num teste de natação, dentro de uma prova de admissão para um curso de Educação Física. Mas o fôlego de carregar esta vida de notoriedade e bolso vazio tinha limites. Seus ganhos totais de toda carreira de atleta amador somaram cinquenta dólares, agraciados por Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira de futebol nas copas de 58, 62 e 66, durante um encontro do acaso num hotel no exterior. A frase famosa de Manoel dizia tudo: “O que adianta ser recordista mundial e ter de pedir dinheiro ao pai para levar a namorada ao cinema?”
O Adeus Em Forma
Veio então a última participação internacional do nadador. E que participação! Em fevereiro de 1962, Manoel foi a Buenos Aires ajudar o Brasil arrancar o tricampeonato sul-americano de dentro da casa dos argentinos. Nos 100m, 200m e 400m livre o duelo com Nicolao foi sensacional, com o argentino vencendo nas últimas duas por batida de mão e estabelecendo novos recordes sul-americanos. As pratas de Manoel, com os tempos de 2m7s3 nos 200m e 4m39s8 nos 400m, lhe valeram recordes nacionais que duraram 4 e 2 anos respectivamente. Nicolao foi a grande estrela do campeonato e deu sinais do recordista mundial de borboleta que estava para brotar na semana seguinte, no Guanabara, com grande apoio de Manoel. As provas de revezamento decidiram o campeonato e o Brasil levou os três ouros masculinos, em provas disputadíssimas com a Argentina, com Manoel sempre fechando para os brazucas. O Sul-Americano de Buenos Aires mostrou o topo de sua forma, certamente do ponto de vista aeróbico.
Depois, o Pan de 1963, apesar de ter sido em São Paulo, provou estar além de sua paciência e flexibilidade financeira de atleta amador. Com 23 anos recém completados, Manoel foi trabalhar com o pai e começar a ganhar a vida, princípio familiar inquestionável em sua cabeça. A nós, brasileiros admiradores da natação, ele deixou esta singela história de conquistas acima dos nossos horizontes. Fica aqui o meu registro deste super atleta.
Na próxima semana, em homenagem aos portenhos, é a vez de Nicolao, o chamado físico perfeito de nadador de borboleta.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil
 
 
 
 
 

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OBSERVAÇÃO: A publicação ou permanência deste texto poderá ser vetada a qualquer momento pela direção da Best Swimming


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20/06/2009 18:37:38 » Katia Fonseca

Adorei saber destes fatos ... Tio Manoel é DEMAIS !!! Parabéns pelo artigo !!!

12/03/2009 18:26:17 » ruy quinode oliveira

de otima qualidade o artigo parabens.aliás Manoel dos Santos tem uma academia aqui no morunbi

30/04/2008 12:54:06 »

Esse cara ainda está vivo? Pq a gte não houve falar dele?


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