Speedo Elite Team/Future Team

arquivo histÓrico

14/04/2008

O NOSSO MAIS RÁPIDO NADADOR DO MUNDO – PARTE I

Divulgação

Manoel dos Santos

Gazeta Press

Outra imagem de nosso campeão

Autor • Pedro Junqueira
Fonte • Best Swimming
Durante muitos anos, entre o fim da minha infância e começo da adolescência, havia um recorde brasileiro que parecia imbatível e mitológico na minha cabeça de moleque curioso e interessado na natação. Ano após ano, o Almanaque Abril mostrava na sua tabela: 100m livre, 53.35, Ruy Tadeu Aquino de Oliveira, Salvador/Jan.1974. Em todos campeonatos de Troféu Brasil, os medallhistas desta prova não conseguiam romper os 54s. Djan vinha dizimando os recordes de fundo. Jorge Fernandes era um garoto de Júlio Delamare. Para mim, o recorde do Ruy era, ao mesmo tempo, a referência de velocidade máxima no Brasil e do início da história da natação relevante no país.
Alguns anos de sabedoria mais tarde e eu já guardava, com cautela, a informação nada familiar de que um tal de Manoel dos Santos tinha sido recordista mundial da prova, com 53s6, no começo dos anos 60. Muito tempo depois eu vim aprender que o Ruy tinha aberto o revezamento brasileiro, em Arica, no Sul-Americano de 1972, com 53s4, e que, entre o Manoel e o Ruy, quem reinou na velocidade foi o José Aranha, nadador azarado que nunca bateu o recorde brasileiro, apesar de ter fechado e salvado o histórico revezamento brasileiro, quarto lugar em Munique, em 1972, com 52s1. Mas o nosso recordista mundial permaneceu para mim, por longo tempo, não mais do que um nome português associado a um recorde mundial , na longínqua década em preto e branco dos anos 60, época determinada como irrelevante na minha soberba ignorância. Eu não podia estar mais enganado.
A história de Manoel dos Santos nos remete ao interior de São Paulo, dado geográfico pertinente porque é deste mesmo interiorzão paulista que vieram todos os nossos melhores nadadores masculinos até hoje. Tetsuo de Marília, Manoel de Guararapes, Fiolo de Campinas, Prado de Andradina e Gustavo Borges de Franca. Tem até um outro de Santa Bárbara d’Oeste, mas este está quase chegando lá. A curiosidade geográfica fora de série é que o pai de Manoel , um imigrante português, era proprietário de um hotel em Andradina onde ele hospedou, durante muito tempo, um casal de gaúchos que migrou para lá, e que, este casal, gerou, entre vários campeões nadadores, um outro recordista mundial brasileiro, o caçula da família que dispensa apresentação. O pai de Manoel, além de ter gerado um recordista mundial e hospedado os geradores de outro recordista mundial, era dono também de um cinema, onde seu filho garoto obrigava o operador das películas repetir várias vezes as cenas dos filmes do Tarzan nas quais o Johnny Weissmuller dava suas braçadas. Manoel assistia e observava o grande campeão olímpico e tentava imitá-lo na Represa do Ramalho.
Treinamento de Internato
No seu quarto ano de vida, Manoel passou a maior parte do tempo em um hospital, se recuperando de recorrentes ameaças de pneumonia e similares que seu mirrado e fragilizado corpo sofria. O pai viu na natação a salvação daquele drama. Antes de completar onze anos, no começo de 1950, Manoel foi estudar como interno em Rio Claro, no Ginásio Koelle, um colégio alemão. O menino se viu afastado da família, a qual ele só via nas férias e semana santa, quando ele pegava o trem para o oeste do estado. Lá em Rio Claro, na rotina rígida do colégio, Manoel se ajustou bem com o programa natatório. Numa piscina de uns 20 metros, sob a orientação de Bruno Bucci, seu primeiro mestre, ele passou a treinar, competir e fazer parte do time do ginásio.
O nadador mais forte do grupo era um garoto três anos mais velho que Manoel, chamado João Gonçalves, futuro campeão e recordista sul-americano no nado de costas e atleta multiesportista participante de várias olimpíadas. Mas João tinha um estilo, como nadador, chamado na época de brigador. Na base da força bruta. Por outro lado, a namorada do João, Inge Borg , deslizava na água e era considerada uma estilista, da escola do Weissmuller que inspirava Manoel e que influenciou seu estilo. A versão moderna do estilista seria o australiano Ian Thorpe, com seu nado sem arranque de cabeça e de braçadas angulares, simétricas e fluídas.
Em 1955, Manoel dos Santos se aproximou do topo nacional. Seu nado era o costas e seu treino era mais focado neste estilo. Nos 100m livre, estávamos em época de transição na liderança nacional. Nossos três maiores velocistas da virada de década e começo dos anos 50, os cariocas Aram Boghossian, do Tijuca, Sérgio Rodrigues, do Fluminense, e o paulista pinheirense Plauto Guimarães, tinham dependurado as respectivas sungas. O paulista Paulo Catunda e o santista Haroldo Lara eram os mais rápidos agora. Haroldo seria nosso maior expoente até 1957, quando largou a natação, se mudou para a Itália e se tornou cantor de ópera. Em março de 1955, Manoel foi convocado para sua primeira competição internacional, os II Jogos Pan-Americanos, na Cidade do México. Desde então, a partir dos seus 16 anos de idade, ele encarou estes momentos como representante nacional com excessiva responsabilidade e idealismo de atleta amador daqueles tempos. O adjetivo amador significava, antes de tudo, aquele que ama o esporte, e não tinha a conotação atual de praticante de segunda linha, ou de inocente. No México, depois de uma viagem de avião militar de carreira, um DC-3, que durou quatro dias, com pernoitadas em Belém, Trinidad e Tobago e Cuba, Manoel competiu muito mal. Sua principal lembrança do torneio foi do momento em que ele saiu desolado da prova, caiu numa bela piscina vizinha de aquecimento e, fingindo estar se soltando, chorou muito, solitariamente, até a última lágrima se perder escondida no meio do cloro.
No ano seguinte, em fevereiro de 56, em Vina del Mar, no Chile, aconteceu a décima-terceira edição do campeonato sul-americano. Das doze anteriores, o Brasil só tinha derrotado a Argentina uma única vez, na mesma Vina del Mar, em 1941. Manoel dos Santos, escalado para os 100m livre, ficou em quinto lugar na final, e Haroldo Lara pegou a quarta posição. Nos 200m costas, Manoel ficou em quarto lugar e a prova foi vencida por seu colega de Rio Claro, João Gonçalves. No revezamento 4x100m livre, a prova teve uma final espetacular. Em primeiro, com recorde de campeonato, em 3m59s7, chegaram os peruanos. Um décimo de segundo atrás, medalha de prata, chegou o Brasil. Os argentinos vieram em terceiro, nove décimos de segundo atrás do Brasil. A equipe de revezamento brasileira contava com Haroldo, Manoel e João, além de Aristarco de Oliveira. Nas tomadas parciais, Manoel foi o mais rápido dos quatro. Ele declarou que, naquele momento, ele percebeu que sua especialidade e futuro eram os 100m livre, e o costas era apenas um subproduto. Este clarão, esta consciência de onde residia seu verdadeiro talento resultou, em pouco tempo, num salto de melhora. Quanto ao Sul-Americano, como de esperado, os portenhos levaram o título mais uma vez.
Em setembro de 1956, em dois fins de semana seguidos, no Rio e em São Paulo, Haroldo Lara quebrou e repetiu o recorde nacional dos 100m livre, em piscina de 50m, marcando 57s8, recorde este que estava nas mãos de Boghossian desde 1948. Dois meses depois, na nova e majestosa piscina do Vasco da Gama, Manoel dos Santos não conseguiu obter o índice olímpico para a prova, por dois décimos de segundo. Ele se confortou com o pensamento de que na próxima ele iria. A participação da natação brasileira na olimpíada em Melbourne, Austrália, representou um ponto baixo na nossa história. Refletindo nosso talento existente nos anos de 1954 até 1957, não houve um herói salvador, e ficamos de fora de todas as finais. Tal fenômeno se repetiria na segunda metade da década de 80 e na olimpíada de Seoul, em 1988, com exceção do honroso oitavo lugar de Rogério Romero.
O Velocista Se Aperfeiçoa
Em 1957, finalizado o secundário em Rio Claro, Manoel dos Santos se mudou para Santos. A escolha da nova cidade se deveu à entrada na vida dele de Minoru Hirano, seu novo técnico, mestre e quase pai. Hirano entrou pra natação pelas vias do serviço de tradução, exercido durante a estada dos Peixes Voadores no Brasil, em 1950. Foi muito conhecimento natatório adquirido acompanhando e decifrando os olímpicos e recordistas mundiais japoneses. Manoel foi morar com a família de Hirano e treinar no Clube de Regatas Internacional. O método de Hirano era o equivalente de uma versão antiga do Race Club, meca de muitos velocistas atuais. No fim dos anos 50, a metragem dos treinamentos, mesmo no Brasil, começou a aumentar substancialmente. Hirano foi contra a corrente. Ele fazia Manoel nadar uns mil metros e depois trabalhava perna, posicionamento de braçada, ângulo do queixo etc., e finalizava com uma meia dúzia de tiros de 25m. Muitas vezes ele não podia estar presente aos treinos, e Manoel chegava sozinho para a sessão com um papelzinho na mão ou a sequência decorada na cabeça.
Em dezembro de 1957, Manoel bateu o recorde nacional de Haroldo Lara e sul-americano do argentino Pedro Galvão, em Santos, em piscina de 25 metros (ainda válido naquele ano), marcando 56s5. Na sequência, em fevereiro de 1958, foi realizado o Sul-Americano seguinte, em Montevideo. Pela primeira vez na história de trinta anos e quatorze edições do torneio, o vencedor dos 100m livre venceu a prova com folga, não na batida de mão, mas com dois segundos e meio de frente ou quase cinco metros de distância. Seu nome, Manoel dos Santos. O único brasileiro até então, além de Armando Freitas em 1939, a conquistar este ouro. A medalha de prata foi para o quase invencível Ismael Merino Martínez, o peruano tricampeão da prova em 52, 54 e 56. O tempo de Manoel nas eliminatórias, 56s6, representou novo recorde sul-americano, já que a partir de 1958, todas as federações internacionais oficializaram a regra de só considerar válidos os recordes em piscina de 50 metros.
Manoel ajudou o Brasil a varrer todos os ouros das três provas de revezamento e conquistar os imprescindíveis pontos duplos destes eventos. Ele não pôde fazer mais porque a prova dos 200m livre foi retirada da programação do Sul-Americano para igualá-la ao programa olímpico. Sylvio Kelly ganhou os 400m livre, João Gonçalves levou as provas de costas e Otávio Mobiglia as de peito e, no feminino, Silvia Bitran venceu todas as provas do nado livre. Finalmente, 27 anos depois do primeiro título, o Brasil conquistava o título máximo do nosso subcontinente. Esta onda positiva na nossa natação iria crescer a reboque da fenomenal performance de Manoel nos anos seguintes, muito maior que qualquer experiência natatória que o Brasil já tinha vivenciado até então. Não deixa de ser apropriado notar que aqueles eram os anos dourados de JK, o ano da nossa primeira Jules Rimet, os tempos de surgimento da Bossa Nova e, no pequeno mundo dos amantes da natação, a época de nosso Sputnik, Jato, o homem mais rápido do mundo na água.
Muito mais sobre Manoel dos Santos semana que vem.
 Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil
 
 

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Quem já comentou...

Gustavo comentou em 15/04/2008, 13:25:

Muito, muito bom.
A natação brasileira estava carente de um material bem organizado de sua história.
Parabéns Pedro.

Wlad (Paineiras) comentou em 15/04/2008, 16:16:

Parabens pelos textos. E com certeza serei um dos primeiros a adquirir seu livro. Abraços, Wlad (Clube Paineiras do Morumby - SP)
www.paineirasnatacao.blogspot.com

Rogerio Mixirica Nocentini comentou em 18/04/2008, 16:17:

Sensacional! Fico esperando o dia de poder ler os textos do Pedro. Parabéns.

pamela comentou em 16/09/2008, 13:02:

nossa que gatão gostoso

ggggggggggggggg comentou em 27/05/2010, 13:35:

que da hora

athos procopio de oliveira junior comentou em 13/06/2010, 20:47:

Pedro,

Estive com o Manoel no Club Pinheiros.
Entrei no Google buscar o e-mail dele.
Encontrei os seus artigos, ótimos.
Abrs,
ATHOS.

carlos camargo comentou em 29/06/2010, 15:04:

parabéns, me trouxe boas lembranças do meu tempo como nadador do Floresta (ex-e atual Espéria), quem sabe a partir da natação v. não poderia historiar o polo aquático brasileiro? sugestão: natação, escrever capítulos por estilo, que tal?
obdo/camargo

helart vargas campeon sudamericano comentou em 20/07/2010, 20:44:

nadadotr peruano master campeon 24 titulos sudamericanos helart vrgas tengo mucha admiracion por todos los nombrados en este texto que acbo de leer en verdad soy admirador de todos ellos y de brasil muchos anrazos t viva la natacion saludos....

HELART VARGAS BARRIG comentou em 7/05/2012, 18:56:

NO OLVIDARSE PONERLO EN SU LIBRO NATA CION MASTER PENTA CAMPEON SUDAMERICANO.....