Speedo Elite Team/Future Team

arquivo histÓrico

06/06/2008

EXPECTATIVAS X REALIDADE – GERAÇÃO MONTREAL 1976

Manchete Esportiva

Djan Madruga

O Estado de Minas

Djan no Troféu Brasil no Minas Tênis Clube

Manchete Esportiva

José Fiolo

O Globo

Flávia Nadalutti

Relatório da Olimpíada

Medalhistas da prova dos 1500 livre masculino

Autor • Pedro Junqueira
Fonte • Best Swimming
Muitos quadriênios intra-olímpicos atrás, mais precisamente em 1975, passou por uns tempos uma propaganda na Globo cujo lema era Mexa-se. O jingle do comercial emocionava os amantes dos esportes olímpicos. Talvez o mais conhecido da série fosse o que aparecia o João do Pulo. Antes da música crescer em volume, a narração nos dava um sucinto histórico dos feitos do saltador, ainda então um mero João Carlos de Oliveira, e depois vinha a voz em off dele: “Treinar, treinar, treinar, para obter melhores resultados ...”. Mexa-se!!! . Logo na sequência aconteceu o Pan do México e os imortais 17m89cm. O salto, em câmera lenta, foi incorporado na vinheta original de entrada do Esporte Espetacular, como seu gran finale, e quem não viu, perdeu.
Um outro anúncio da série do Mexa-se só chamava mesmo a atenção de uns poucos aficcionados da natação. A tomada era de uma virada olímpica de um garoto na piscina do Fluminense. A seguir, vestido de estudante secundário com uma pastinha debaixo dos braços, este nadador, de óculos, de cabelos, ainda existentes, compridos e molhados, falava qualquer coisa num close-up de câmera. A narração nos esclarecia seu currículo precoce: “Djan Garrido Madruga, 16 anos, recordista sul-americano dos 200, 400, 800 e 1500 metros livres...” Mexa-se!!! Quanto aos 200m, a propaganda estava errada. O equatoriano Jorge Delgado detinha o recorde. Mas não interessava. No ano seguinte, na olimpíada de Montreal, coincidência ou não, o comercial do Mexa-se provou sua capacidade de advinhar, não só nosso maior saltador, como também nosso maior fundista n’água de todos os tempos.
Novas Estrelas Nascentes
Entre Munique e Montreal, a natação brasileira mudou de perfil. Nossos velocistas masculinos do livre, ou dependuraram suas respectivas sungas, ou não progrediram além do aparentemente eterno recorde dos 100m do Ruy T. A. De Oliveira, os 53s35. Nos 200m, tivemos uma evolução mediana, primeiro pelas braçadas de Namorado, nosso primeiro nadador sub-2 minutos, e depois através do adolescente Djan. No peito, estacionamos nos 100m com Fiolo, e vimos surgir, nos 200m, alguém que superasse nossa grande estrela, o gaúcho Sérgio Pinto de Oliveira. No borboleta o ganho foi pouco e, nos 100m, passamos a depender de ninguém menos do que Rômulo Arantes. No medley, nosso nível continuou um tanto terceiro mundista, primeiro ainda com Rochinha, nosso representante adolescente em Munique e futuro pai do Lucas Azevedo, e depois com Djan e James Adams. E no feminino houve uma mini-mudança de geração, com nossa liderança passando para as mãos das emergentes Maria Elisa Guimarães e Flávia Nadalutti, as quais gerariam interessantes Fla-Flus em Troféus Brasil do futuro, mas tudo num nível técnico nunca além de nossas fronteiras continentais.
Onde houve melhoras significativas neste período foi pelas mãos de Rominho no costas, baixando seu tempo dos 100m da casa dos 1m01s para a dos 58s, e pelo pulmão fundista do Djan que, a partir de março de 1974, com quinze anos de idade recém-feitos, passou a dominar as provas de fundo no continente e arrancar fatias inteiras de nossas marcas recordistas. Em agosto de 74, depois de uma competição em Ottawa, Canadá, ele se tornou o recordista sul-americano dos 400, 800 e 1500m livre. Em abril de 75, ele quebrou a barreira dos 16 minutos nos 1500m, na Copa Latina em Las Palmas. A partir daí, quando o Djan competia, abríamos o jornal no dia seguinte para checar se tinha nadado abaixo de 16 minutos. O número virou referência.
Rômulo se tornou nosso costista titular desde seu aniversário de 15 anos, antes de embarcar para Munique. Paulatinamente, até a olimpíada de Montreal, e sem adversário local, ele elevou o patamar deste estilo em nosso país para dentro dos melhores doze do mundo. Já nas provas de fundo do livre, onde tínhamos sido rebaixados, depois de Tetsuo, para a condição de pernetas anônimos no quadro internacional, Djan, aos poucos, galgou o enorme fosso que nos separava da elite mundial até colocar o nome do Brasil na cresta do Olimpo dos fundistas.
Entre estas duas olimpíadas que precederam os anos de boicote, foram realizados os dois primeiros campeonatos mundiais de natação, em 73, em Belgrado, e em 75, em Cali. Na Ioguslávia, pegamos três finais, com Ruy T.A. de Oliveira em oitavo nos 100m livre, Rômulo Arantes em sétimo nos 100m costas, e o nosso 4x100m livre masculino em quinto, voltando a marcar 3m33s. Na Colômbia, dois anos depois, ficamos de fora de todas as finais. O advento dos campeonatos mundiais deu um impulso à natação global, viabilizando uma oportunidade extra, além das olimpíadas, de confronto entre os melhores e, um pouco depois, salvando a independência deste esporte, durante os anos deprimentes de boicote.
Para os melhores nadadadores brasileiros dos anos 70, o topo do ranking de importância das competições tinha a seguinte ordem: olimpíada, mundial, pan, copa latina. Para o Pan, americanos e canadenses ainda mandavam seus times titulares. Para a Copa Latina, que foi criada em 1973, o Brasil também enviava seus melhores. Para os Sul-Americanos, competição que perdeu relevância a partir desta década, despachávamos nosso time B.
Djan e Rômulo eram nossos únicos representantes que, consistentemente, encaravam e derrotavam nossos adversários italianos, franceses e espanhóis na Copa Latina. No Pan de 75, melhoramos bastante nosso número de medalhas. Nosso fundista conquistou dois bronzes, atrás dos americanos, nos 400m e 1500m livre, nosso costista também arrebatou seu bronze em sua prova de 100m, e Fiolo, pelo terceiro Pan seguido, saiu medalhado, desta vez no degrau mais baixo do pódio. O grande nome sul-americano no México foi de Jorge Delgado. O brilhante equatoriano conquistou o ouro nos 200m livre.
Sem Pretensão
Ao chegar a hora de Montreal, no meio de 1976, não tínhamos nenhuma expectativa ambiciosa em relação a nossa participação. Fiolo, no fim de carreira, já estava mais preocupado em não ganhar peso. O melhor peito mundial tinha ultrapassado, com folga, as possibilidades de nossa grande estrela das duas olimpíadas anteriores. Seu tempo tinha estacionado nos níveis de 1972. Rômulo estava em plena ascenção, mas ainda distante da liderança mundial. Djan era o mais promissor da equipe. Seu tempo mais competitivo era o dos 400m livre, 4m00s80, um recorde sul-americano que tinha sido cortado em quase dez segundos nos dois anos anteriores. Mesmo assim, faltava chão, ou ladrilho, para alcançar os melhores americanos e australianos.
Embarcamos uma equipe bem mais reduzida do que aquela de Munique, sem revezamentos desta vez. No masculino, além dos três acima mencionados, levamos apenas Paul Jouanneau, companheiro de treino de Djan, e Sérgio Pinto Ribeiro. No feminino, de Munique para Montreal, trocamos de time quase inteiramente. Além da veterana Cristina Bassani, agora era a vez das novatas Maria Elisa, Flávia Nadalutti e Rosemary Ribeiro. Nenhuma com chance de final olímpica. O técnico era Denir de Freitas, do Flu e de Djan, Paul, Flávia e Cristina. Era a última fase áurea do time tricolor carioca, que tinha prevalecido tanto nas décadas anteriores. Em 1976, o Fluminense liderava a natação nacional, praticamente de cima a baixo. Não só com nadadores como Djan e Flávia, no Troféu Brasil, mas também com talentos mais novos como Ivan Celjar no Júlio Delamare e Júlio Rebolal no Cidade Campinas.
No Fundo nos Salvamos
No primeiro dia de competição em Montreal, Rômulo e Paul passaram para as semis dos 100m costas, mas, à noite, pararam por ali. O rubro-negro estabeleceu novo recorde sul-americano com o tempo de 58s46. No segundo dia foi a vez de Fiolo e Sérgio P. Ribeiro ficarem nas semis dos 100m de peito, ambos nadando a menos de um décimo do recorde sul-americano da prova. Mas nesse mesmo segundo dia, pela manhã, nas eliminatórias dos 1500m livre, começou o pequeno espetáculo que o Djan iria montar na natação de fundo do Brasil. Na segunda série, ele ficou em segundo lugar, marcando 15m36s95 e baixando seu recorde sul-americano em vinte segundos. No geral ele se classificou em sexto, duas posições na frente de um garoto russo, Vladimir Salnikov, ainda mais novo do que o brasileiro e que, por sua vez, marcou 15m39s04.
Na final, na noite do dia seguinte, Djan nadou na raia 7. Ao seu lado esquerdo, na 8, Salnikov. À sua direita, na 6, o americano Brian Goodell. Entre Goodell e Salnikov, concretamente, Djan, e abstratamente, a revolução performática dos 1500m livre que se deu na segunda metade dos anos 70. Tanto Djan quanto Salnikov cresceram muito na final e pegaram o quarto e quinto lugar, repectivamente, nos tempos de 15m19s84 e 15m29s45. Na frente deles, o pódio mais disputado da história olímpica dos 1500m, liderado por Goodell que nadou nos fenomenais 15m02s40, tempo que permaneceria como recorde mundial até Salnikov quebrá-lo na olimpíada de Moscou.
O recorde mundial dos 1500 metros andou quase um minuto entre Munique e Montreal. A partir daí a queda foi por doses homeopáticas. Mas para nós sul-americanos, o recorde continental dos 1500m livre andou inacreditáveis 70 segundos num prazo de dois anos e meio, entre março de 74 e julho de 76, e quase dois inteiros minutos desde abril de 71. Djan foi pioneiro e perpetuador de nossa revolução aeróbica. Esta sua marca, da final dos 1500m em Montreal, ele nunca mais conseguiria abaixar, nem mesmo em 1980, no alto de sua melhor forma, quando ele realizou outras provas inesquecíveis. Este recorde sul-americano só seria quebrado quase vinte anos depois, por Luiz Lima, em 1995, o qual conseguiu tirar três lasquinhas da marca até 1998, e assim estamos desde então.
No quinto dia de Montreal, foi a vez dos 400m livre. Logo na segunda série, dois feitos curiosos e desconhecidos da quase totalidade de nadadores brasileiros. Djan ganhou a série com o tempo de 3m59s62, e assim, foi o primeiro nadador do mundo a nadar os 400m livre abaixo de quatro minutos numa olimpíada, e o único brasileiro na história, até hoje, a deter um recorde olímpico. Tal recorde não durou mais do que dez minutos. Nas séries restantes, quatro nadadores nadaram mais baixo do que Djan. A prova foi acirrada, com o oitavo classificado nadando apenas 58 centésimos mais lento do que o brasileiro. Salnikov ficou de fora das finais.
À noite, Goodell repetiu o ouro e recorde mundial dos 1500m. Djan, voltou a crescer, encolhendo mais ainda seu recorde sul-americano para 3m57s18. Repetiu a azarada quarta colocação, sina que retornaria mais uma vez em Moscou. Mas para aqueles poucos que acompanhavam sua trajetória e nem de longe sonhavam com tanto destaque, Djan fez de Montreal uma olimpíada de orgulho para a carente natação brasileira. Nosso representante era ainda um adolescente de 17 anos, inteiramente formado e treinado na piscina das Laranjeiras. Pela primeira vez tivemos uma participação de força e sucesso duplo numa olimpíada. E eu acho que o status de fundista de elite mundial carrega um timbre de qualidade especial e diferenciada para seu portador.
Depois de Montreal, Djan recebeu um prêmio pelo seu recorde olímpico. Pagaram para ele uma viagem pelo mundo, por um sem número de países, durante um sem número de meses. Ele usufruiu com gosto da oportunidade. Muito mais parecido com o cool Crocker que, depois de algum recorde mundial ou olimpíada, pega um dos seus carros velhos e adorados e sai pela estrada por várias semanas, ouvindo seu rock de Austin. Muito menos parecido com o cdf do Phelps que nunca parou de treinar. O preço a se pagar é a difícil recuperação e superação dos melhores tempos.
Djan iria levar algum tempo para nadar tão bem novamente. Optou por seguir os passos de Sérgio P. Ribeiro e Rômulo Arantes e embarcar para a vida de atleta nos States. Este era o úncio modelo viável naquela época. Em breve, faria parte de uma inusitada república de estudantes brasileiros em Bloomington, Indiana. No campus, eles não passavam de meros pupilos, alguns mais bagunceiros do que esforçados, de Doc Counsilman. Nos jornais e clubes brasileiros, eles eram a elite brasileira de nadadores. Seus ícones máximos, Djan e Rominho, nossas grandes esperanças para Moscou. Desta vez seguinte, ao contrário de Montreal, as expectativas viriam do lado oposto, inflando-se com a aproximação da olimpíada soviética. Mas isto fica para a próxima semana, já que minhas divagações começam a não comportar mais que uma olimpíada por coluna.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil e assina a coluna Arquivo Histórico do Bestswimming.
 
 
 

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Luiz Carvalho (Chico) comentou em 6/06/2008, 20:34:

Correcao. O nadador que superou o Fiolo os 200m foi o Sergio Pinto Ribeiro (e nao Sergio Pintode Oliveira).

Luiz Carvalho (Chico) comentou em 6/06/2008, 21:03:

Adorei, Pedro. Parabens! O Djan foi o grande "atleta" da natacao brasileira pois treinava super bem, fez "series" inesqueciveis, e depois ainda foi ser um grande tri-atleta. O Djan foi uma grande inspiracao pra mim e outros que vieram mais tarde. Com relacao ao Djan, ficou sempre a impressao que ele podia ter conquistado uma medalha individual Olimpica. O bronze em Moscou no 4x200m foi pouco pelo talento que tinha. Rcardo Prado e Djan foram os grandes nomes na nossa (minha e sua) epoca como nadadores, nao?
Abraco

Hélio Valente Lipiani comentou em 7/06/2008, 20:15:

Grande Pedrinho,
Bom te ver (ler) aqui. Boas lembranças...Bons tempos...Me faz lembar da nossa época de treinos no Minas e "peladas" na sua casa...
Grande abraço.

Antonino da Silva comentou em 8/06/2008, 19:42:

Voce precisa comentar sobre as nadadores que foram nos Jogos de 1972. Afinal, foram as unicas componentes femininas da delegação do Brasil

EDNALDO comentou em 16/12/2008, 22:06:

SOLICITO CONTATO COM O SR. PEDRO JUNQUEIRA NO SENTIDO DE OBTER DADOS HISTÓRICOS SOBRE O 100M LIVRE FEMININO ABSOLUTO NA AMÉRICA DO SUL, PARA PESQUISA. OBRIGADO

Jorge Miler R.Filho comentou em 19/08/2009, 16:01:

Prezado Pedro, parabéns pelos textos, mas há apenas um porém: Mônica Resende foi recordista olímpica em Seul-88, na prova dos 50 livre. Tudo bem que, como Djan, por alguns minutinhos, mas ela merece o reconhecimento. Abraço.
jorgemiler@gmail.com

luiz lins comentou em 28/09/2010, 1:10:

PEDRO, QUERIA QUE VC FALASSE DA FAMILIA ABTIBOL,QUE FORAM GRANDES NADADORES.
LUIZLINSS1@HOTMAIL.COM