Speedo Elite Team/Future Team

arquivo histÓrico

26/06/2008

RUMO A MOSCOU - PARTE III (FINAL)

Relatório Oficial da Olimpíada

Piscina Olímpica de 1980 em Moscou

O Globo

Jorge Fernandes no Troféu Brasil comemorando seu recorde sul-americano

Jornal do Brasil

Mattioli comemora seu recorde brasileiro

Jornal de Indiana

Mattioli no campeonato de pizza, Djan na torcida

Autor • Pedro Junqueira
Fonte • Best Swimming
Vida na República
O que se passa nos bastidores da natação olímpica quase ninguém fica sabendo, assim como também ficamos no escuro no episódio da amarelada do Ronaldo, ex-Ronaldinho, na final da Copa na França. Moscou teve seus mistérios. Antes, naquele último ano pré-olímpico, existia uma república de estudantes em Bloomington, Indiana, onde o comportamento reinante dos seus integrantes destoava bastante de suas auras estelares ao desembarcarem no Brasil com suas camisetas da melhor equipe de natação do mundo.
Dividiam o mesmo teto, Djan Madruga, Rômulo Arantes e os irmãos Mattioli, Marcus e Ricardo. Um belo dia, Djan ficou devendo algum trabalho acadêmico e se comprometeu com os gringos a exibir uma verdadeira cena do sincretismo bahiano, como tarefa de fim de semestre. Chegou na república pedindo voluntários para o papel de algum Orixá numa encenação de Umbanda. Ninguém se atreveu, mas parece que, no final, o Rominho vestiu a camisa. Perante uma platéia numerosa, o experimento ameaçou parecer realidade e, em meio a corações exaltados, Djan precisou desmentir tudo e esclarecer que aquilo se tratava de teatro.
Além de se envolverem com pesquisa acadêmica exotérica, nossos campeões matavam treino como qualquer adolescente. Talvez não o Djan, mas os outros se aproximavam da piscina de binóculos para, de longe, poderem ler quantas linhas Doc Counsilman tinha escrito no quadro. Se fossem muitas, eles viravam as costas e voltavam pra casa. Afinal de contas, a exigência era de dez sessões semanais e a tática era acertar as dez sessões mais curtas.
As americanices da vida universitária deles implicavam em campeonatos de quem come mais pizza. Na foto ao lado pode se ver o Djan incentivando o Mattioli em estágio avançado da competição. Trinta anos depois, pouco mudou. O pobre Cesão, em Auburn, teve que finalizar uma sessão pesada de treinamentos com uma série que consistia em tiros de 100m intercalados com entornadas de garrafas inteiras de Gatorade. Ganhava aquele que fosse o último a botar pra fora.
Júlio Delamare e Troféu Brasil
1980 começou com o primeiro Júlio Delamare no Júlio Delamare. O Jucá e o Prado foram as estrelas do torneio. O primeiro levou o ouro nos 400m e 1500m livre e 100m borboleta. O segundo, ao fazer 15 anos e entrar na classe Juvenil B, de três anos de duração, venceu os 400m medley e ficou com a prata nos 100m borboleta e 100m costas. No medley, marcou 4m35s e colocou dez segundos de vantagem sobre o segundo e o terceiro colocados, Jucá e Roger Madruga respectivamente.
Logo depois veio o Troféu Brasil, pela primeira vez, também, no Júlio Delamare. Djan não veio. Tinha atingido tal status que o isentava da participação no TB. Rômulo veio, mas nadou como o Thiago no último Sul-Americano. Ficou com a prata nos 100m costas, nadando na casa dos 59s. As duas sensações do torneio foram Jorge Fernades e Marcus Mattioli. O primeiro recuperou seu recorde sul-americano dos 100m livre, marcando 52s56, cravando seu nome na tabela de recordes nacionais pela década seguinte afora. O segundo conquistou seu primeiro recorde brasileiro adulto individual, vencendo apertado a prova dos 200m borboleta em 2m05s12 (este recorde seria abaixado para 2m03s48, por Djan, logo depois, em Vancouver, Canadá). Ambos festejaram muito, como atestam as fotografias ao lado. Uma prova emocionante desta competição foi os 200m medley, na qual o Prado derrotou o Mattioli por quatro centésimos, 2m11s versus 2m11s04, com direito a um urro de esforço na chegada, inesquecível, do medalha de prata. O recorde nacional da prova ainda era do Djan, um segundo abaixo, mas começava ali a longa e incontestável supremacia do andradino na natação adulta brasileira. Faltava só o Djan, pra depois da olimpíada.
Djan, por estes tempos, estava atingindo o ápice de toda sua carreira. Foi nesta época que ele fez o primeiro treinamento de altitude na natação brasileira. Com um embasamento científico bastante rudimentar, lá foi ele para uma montanha mexicana. Neste último ano pré-olímpico, por ocasião de uma estada no Brasil, o Djan terminou uma sessão de treinos na piscina do Fluminense com uma série que parou as outras raias. Sob o comando e incentivo de Denir de Freitas, este de cronômetro na mão, o tricolor partiu para os 10 de 150m, na longa, a cada 1m45s. Estas eram épocas em que a série apertada era muito usada, ignorantes que éramos da necessidade do nadador praticar, em treinos, um ritmo um pouco mais rápido daquele da competição. Mesmo assim, saindo a cada 1m45s, ele veio arrancando 1m29s, logo passou pra 1m28s, e no último, 1m26s. Quem viu aquilo só poderia concluir que aquele super-nadador poderia encarar qualquer um.
Djan brilha nos States
Se você pedir ao Djan para que ele explique o ano de 1980, ele vai te dizer que o pico veio cedo demais, em abril daquele ano. Foi quando foi realizado o campeonato americano de primavera, em Austin, Texas. Esta competição virou referência na natação brasileira. Era ano olímpico. Toda a elite americana estava lá, polida, conforme o ciclo da época e o calendário americano. A única ausência foi a de Vasallo. O asinino boicote olímpico já tinha sido ameaçado e confirmado pela administração Carter. Aos nadadores americanos só restava brilhar em solo americano, em Austin, e no Nacional, no verão, em Irvine, California, este último ainda chamado, masoquistamente, de Olympic Trials. Restava também ainda sonhar com uma resolução racional perante tão inusitada decisão americana, que óbviamente nunca veio.
A performance de Djan na competição foi incomparável com qualquer outra dele ou de qualquer outro fundista sul-americano, passado ou futuro. O domínio das provas de fundo ficou entre ele e os americanos Mike Bruner e Brian Goodell. Bruner, careca, era o campeão olímpico, recordista e campeão mundial dos 200m borboleta. Goodell era o campeão olímpico dos 400m e 1500m livre e recordista mundial dos 1500m livre. Nos 400m livre deu primeiro Bruner, segundo Djan, terceiro Goodell. Nos 800m livre deu primeiro Djan, segundo Goodell, terceiro Bruner. Nos 1500m livre deu primeiro Bruner, segundo Djan, quarto Goodell.
Djan bateu o recorde sul-americano nos 400m livre, com 3m53s91, recorde que seria igualado pelo Luiz Lima, 17 anos depois. Bateu o recorde do Aberto Americano, ou seja, em solo americano, e sul-americano nos 800m livre, com 7m59s85, sendo o segundo nadador na história a quebrar a barreira dos oito minutos. Na frente dele, só o Salnikov. Como todos sabem, este recorde continental perdura até hoje, quase trinta anos depois. Nos 1500m livre, seus 15m22s42 ainda ficaram aquém da marca de Montreal, quatro anos antes.
Além disto, Djan conquistou o ouro nos 400m medley, nadando em 4m25s30, nova marca sul-americana. Em segundo lugar na prova, o canadense Alex Baumann, 4m27s83, nova marca canadense e da Commonwealth. Em quarto lugar na final B, com 15 anos mal completados, Ricardo Prado, com 4m30s97. Prado tinha se classificado na décima-sexta colocação nadando seu melhor, em 4m34s04. Era a evolução do futuro campeão e recordista mundial em pleno andamento. Outros resultados de brasileiros mencionáveis foram: Marcelo Jucá em décimo terceiro nos 1500m, em 15m53s89 e Jorge Fernandes em enésimo lugar nos 50m livre, em 24s42, mas batendo o recorde brasileiro naqueles primórdios desta prova no Brasil. Rômulo não foi, e Jackson e Rocca fizeram dobradinha nos 100m costas, marcando 56s84 e 57s20, respectivamente, comparando com os 57s20 do rubro-negro no Pan, em San Juan, no ano anterior. No final da competição, Djan ficou em segundo lugar como nadador de maior pontuação individual, só dois pontos atrás de Bruner, campeão também da prova dos 200m borboleta.
Olimpíada na USSR
Três meses depois, chegou a hora soviética. Uns cinco dias antes do início da olimpíada, nossos nadadores atravessaram a cortina de ferro e se instalaram na vila olímpica, satisfeitos com as acomodações e organização. Djan afirmou que dormiu treze horas seguidas na primeira deitada, depois de sua chegada por lá. Do lado de cá, no mundo ocidental, ficamos aguardando as primeiras imagens daquelas terras inóspitas, sempre cinzentas, nas raras vezes que a TV Globo tinha mostrado algo além do desfile de primeiro de maio e toda gerontocracia do Politburo na praça vermelha. No show da abertura no estádio Lênin, o ursinho russo Misha chorou na imagem coreográfica no estádio, nos mostrando o lado humano dos comunistas, o desapontamento com o boicote, e o brilhantismo da propaganda soviética. No Jornal Nacional, os repórteres da Globo seguiram nossos nadadores andando por Moscou, e Djan aproveitou para dar um recado pra mãe dele: Alô Mamãe!
Só havia homens na equipe brasileira. Eram eles: Djan, Rômulo, Jorge, Cyro, Mattioli, Prado, Jucá, Sérgio P. Ribeiro (desaposentou e reassumiu a posição de peitista do país) e Cláudio Kestener (borboletista da família de nadadores pinheirista). Começamos a competição com o pé esquerdo, quase uma tragédia. Logo no primeiro dia de provas, os 100m costas. Parêntesis: Esta foi uma das pouquíssimas provas com semifinais. Até a olimpíada de Moscou, só existiam semis para as provas de 100m, e no caso de Moscou, havia a necessidade de um número mínimo de séries eliminatórias. Mas cada país podia ter três nadadores representantes por prova. A partir de LA, as semis foram eliminadas e o número de nadadores por país caiu pra dois.
Rômulo nadou pra 57s90 e classificou-se pras semis na terceira posição no geral. Em décimo-primeiro o sueco Bengt Baron, com 58s46. Em décimo-segundo o russo Viktor Kuznetsov, aquele desclassificado por doping no Mundial em Berlim em 78, com 58s47. À noite, Rominho piorou, nadando pra 58s21 e caindo pra décima-primeira posição. Seus 57s20, do Pan, em San Juan, o teriam classificado na segunda posição. Tal resultado deve ter sido um choque de terminar a carreira de nosso experiente costista, triolímpico. Outro que ficou de fora, na nona posição, foi o bem cotado australiano, Mark Kerry, com o tempo de 58s07. No dia seguinte, nas finais, veio a inesperada vitória do sueco Baron, com o tempo de 56s53, e a prata ficou com Kuznetsov, em 56s99. Em 57s20, Rômulo teria ficado com o bronze. Concomitantemente, em Irvine, CA, no campeonato americano dos ausentes olímpicos, o pódio desta prova ficou com Rocca, Jackson e Rick Carey, futuro campeão olímpico, com os tempos de 56s64, 56s78 e 56s93, respectivamente.
No segundo dia de provas, nos afundamos um pouco mais em nossas agruras. Existem versões variadas, dependendo do autor, como explicação do que se passou. Pelo Jornal Nacional, ouvimos uma estória de que Djan Madruga machucou o pé ao sair, apressadamente, da piscina de esquentura, quando foi chamado para sua prova dos 1500m livre. Crível ou não, o fato é que ele nadou abnormalmente pior do seu esperado, em 15m56s, e passou longe das finais. Por outro lado, esta era uma prova que ele não tinha boas chances de medalha. O medalha de bronze, o australiano Metzker, nadou pra 15m14s, bem abaixo do melhor do Djan, 15m19s, ou seu tempo em Austin, no topo da forma, 15m22s. Pra se ter uma idéia como era difícil ser um dos melhores fundistas naquela época, vale a pena a seguinte comparação. Tecnologias e regulamentos à parte, nossos melhores nadadores de hoje, Thiago, Cesão, Kaio, Guido e Henrique, levariam fácil o ouro olímpico em Moscou. Mas nos 1500m livre, o Salnikov poria uma frente de 50 metros nos nossos melhores fundistas de hoje. Na verdade, fosse possível o túnel do tempo, o Kanieski e o Arapiraca ficariam atrás do oitavo lugar em Moscou.
Os ventos só começariam a soprar a favor do Brasil a partir do quarto dia de competições. Nosso trio de velocistas e meio-velocistas, Jorge, Mattioli e Cyro, já tinham entrado nos 200m livre, no segundo dia, nadando pra 1m54s32, 1m54s39 e 1m54s59, respectivamente, e ficando todos distantes da final. Agora era a vez do revezamento 4x200m livre. De manhã, nosso quarteto formado pelos três acima mais o Djan, nadaram pra 7m32s81, melhorando em seis segundos o recorde continental estabelecido no Pan, e classificando-se em terceiro no geral. Jorge abriu com 1m53s49, Mattioli veio a seguir com 1m52s76, Cyro foi o terceiro com 1m53s20, e Djan fechou com 1m53s36. À noite, na raia 3, na mesma ordem, os quatro caíram pra matar. Jorge abriu com 1m52s61, encostando no recorde sul-americano, 1m52s34, do Djan. Mattioli nadou em 1m52s94, Cyro em 1m52s35, e o Djan fechou, fenomenalmente, em 1m51s40. Tempo total de 7m29s30, abaixo de quatro vezes o recorde sul-americano individual da prova, como tem que ser nas grandes performances de equipe de revezamento. A prova foi emocionante, com um miolo largo, disputado acirradamente da segunda à sétima colocação, todas em jogo ao mesmo tempo. O Brasil esteve em quarto lugar, depois quinto, e quando Djan saltou, estávamos em terceiro, embolados, mas os ingleses, italianos, suecos e australianos, todos encostados atrás, tinham nadadores pra fechar com 1m50s/1m51s, e o tricolor deu o sangue, executando o fechamento de sua vida.
A prova de revezamento deve ter levantado a moral do Djan, apagado de sua memória o melée dos 1500m e contribuído fortemente para suas participações honrosas nos 400m livre e medley, nos últimos dias de competição. Quanto a mim, acordei no dia seguinte da prova, em Poços de Caldas, e vi estampada nas primeiras páginas dos jornais brasileiros a foto do quarteto no pódio, levantando os braços. Infelizmente, não tenho esta foto para republicá-la. Aqueles eram tempos de parcas medalhas para uma nação inteira, de 120 milhões de habitantes. Tinha o João do Pulo na segunda semana, os caras do iatismo, que ninguém entendia direito como funcionava, quem sabe alguma coisa no judô. No último dia da olimpíada, no desespero, corríamos para assistir o hipismo, sem ter qualquer ligação com aquele esporte. Graças a Deus, inventaram o vôlei de praia. E hoje temos o espetacular vôlei do Bernardinho e cia. Mas aquele bronze do reveza foi nossa primeira medalha, no geral, em Moscou, de um total de quatro, nossa primeira medalha olímpica da natação desde 1960, antes da vida como eu a conhecia. E naquele pódio tinha um cara que costumava jogar uma pelada na minha casa, apesar de jogar muito mal...
Nos últimos dias da natação em Moscou, Djan ficou em quarto, seu terceiro quarto lugar olímpico, nos 400m livre, marcando 3m54s15. Seus 3m53s91, de Austin, teríam-lhe dado o bronze. Nos 400m medley, ele se classificou em sétimo lugar, e na final, subiu para o quinto, com o tempo de 4m26s81. Do resto da equipe brasileira, três resultados merecem menção. Jorge Fernandes quebrou, por cinco centésimos (52s51), seu recorde sul-americano nos 100m livre,conseguiu passar às semis, quando ficou na décima-sexta colocação, e bateu seu adversário continental, o futuro recordista sul-americano, o venezuelano Alberto Mestre. Nosso 4x100m medley, com Rômulo, Sérgio, Cláudio e Cyro, também quebrou a marca continental, marcando 3m53s24 e ficando na oitava posição.
No último dia de provas, sentindo-se um tanto abandonado pelos outros nadadores, estes já em clima de fim de festa ou de tristeza, Ricardo Prado, aos 15 anos, teve sua primeira participação olímpica. Ficou em décimo segundo lugar nos 400m medley, marcando 4m31s69. Ao sair da piscina, não tinha ninguém para comentar, lamentar ou se apoiar. Nossas estrelas não tinham conseguido as almejadas, senão esperadas, medalhas, e não estavam com paciência para aconselhar novatos. Mas nada como um dia após o outro. O futuro iria ver uma coisa! Semana que vem...
De olho em Omaha.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil e assina a coluna Arquivo Histórico do Bestswimming.
 
 
 

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Luiz Carvalho (Chico) comentou em 26/06/2008, 23:59:

Que legal! Ótimo artigo. Eu também conhecia bem a equipe de Moscou-80. A medalha de bronze foi super especial por ser de revezamento e muito merecida! Incríveis também os tempos do Djan. Sempre achei ele um super-atleta. Continue assim Pedro, great job! Abraço!

Fernando Magalhães comentou em 11/12/2012, 18:21:

Ah essa série de 10x150... impressionante.