Speedo Elite Team/Future Team

arquivo histÓrico

01/08/2008

1984 - O ANO QUE NÃO ACONTECEU

UOL

Pradinho com as medalhas do Pan 2003

Revista Veja

Ricardo Prado na capa da Veja rumo a Los Angeles

Autor • Pedro Junqueira
Fonte • Best Swimming
Assumindo a Responsabilidade
O torcedor brasileiro admira e agradece quando uma rara alma atlética chama para si a responsabilidade na hora crucial do sufoco. Os notórios exemplos, a favor e contra, vem do futebol. Só a personalidade forte e a auto-confiança inabalável de um Pelé, ou mesmo um Romário ou um Sócrates, chamando a “responsa”, quando tudo parecia prestes a desabar precipício abaixo, podiam reverter um resultado catastrófico. Por outro lado, nas Copas do Mundo de 1998 e 2006, nossas estrelas frágeis miaram perante nossos algozes franceses.
Em 1984, em Los Angeles, Ricardo Prado chamou a “responsa” pra cima dele. Não sou eu que digo isto pra impressionar as memórias fracas ou as gerações novas. Esta lá, em algum arquivo da Globo, ou da versão expandida do Globo Esporte durante a olimpíada daquele ano. Mais precisamente, no programa que rodou no dia 30 de julho de 1984, entre as eliminatórias e finais dos 400m medley.
Estávamos na primeira semana dos Jogos, de acordo com seu programa tradicional, dominado pela natação na primeira semana e pelo atletismo na segunda. Mas as duas semanas olímpicas passam rápido e, com o decorrer dos dias e a falta de perspectivas de medalhas, quiçá de ouro, íamos ficando frustrados e um pouco deprimidos com a realidade da nossa ausência dos pódios de todos os eventos. Sempre teve o iatismo, mas as medalhas tupiniquins neste esporte nunca satisfizeram por completo nossa fome de premiação olímpica. A geração prata do vôlei estava a caminho, beneficiada pelo boicote do bloco soviético, mas todo aquele esforço representava somente uma medalha, e esta, no último dia de olimpíada. Finalmente, teríamos o fenomenal Joaquim Cruz na segunda semana, mas ninguém previa aquele ouro contra os ingleses e africanos.
O repórter perguntou sobre as perpectivas na final e Prado olhou pra câmera e respondeu: “Acho que dá.” O que era obviamente subentendido era que ele se referia à medalha de ouro. Éstávamos secos por uma única chance, naquele deserto de oportunidades, de chegar no ponto mais alto. Pelo menos, por uma única vez, evitaríamos as bandeiras e hino estrangeiro, principalmente aquele meloso dos anfitriões, eternamente sendo tocado naqueles Jogos enquanto um dos seus inúmeros homenageados trazia a mão ao peito inflado. Naquele momento, no “Acho que dá”, queiram ou não queiram, Prado carregou o país nas costas.
Repassando 1983
O recorde mundial do Prado, dos 400m medley, de agosto de 1982, em Guayaquil, 4m19s78, tinha durado até 23/05/84, quando o alemão oriental Jens-Peter Berndt abaixou a marca em 17 centésimos, em seu país, trazendo o recorde para 4m19s61. Três semanas depois, no Canadá, nos preparativos para a olimpíada, Alex Baumann mostrou quem seria o favorito em LA no mês seguinte, arrancando mais de dois segundos do recorde de Berndt, nadando em 4m17s53. Baumann já era recordista mundial dos 200m medley desde agosto de 1980 e nadava esta prova curta bem mais rápido do que Prado.
No ano anterior, em 1983, durante a alta temporada de verão, em julho e agosto, tinha sido realizado um trio de competições entre a elite mundial, o qual continuou a consolidar a posição de relevância do Prado neste meio. Na primeira delas, o Universíade, em Edmonton, Canadá, aconteceu um dos poucos encontros competitivos entre Baumann e Prado, e o último antes da olimpíada. O canadense levou a melhor, mesmo na prova mais forte de Prado, os 400m medley, vencendo a mesma em 4m19s80, dois centésimos mais lentos que o recorde mundial do brasileiro, vigente então. Foi nesta competição que o russo Fesenko conveceu Prado a ser entrevistado (ver meu último artigo nesta coluna), cercado de mistério, pelos técnicos russos, provando a importância mundial que nosso campeão carregava nos olhos dos adversários.
Na segunda delas, o Nacional Americano, em Clóvis, California, Prado, nadando sempre seu quarteto de provas, os 200m borboleta, costas e medley e os 400m medley, voltou a vencer os 400m medley e quebrou suas marcas sul-americanas dos 200m medley, 2m04s10, e dos 200m borboleta, 1m59s76. A marca do medley viria a ser a melhor de sua vida, e a marca do borboleta representaria a quebra da barreira dos dois minutos no continente.
A terceira e última das competições do verão de 83 foi o Pan, em Caracas, para qual o ciclo de treinamento de Prado estava direcionado. Ele venceu as duas provas de medley e conquistou a prata nos 200m borboleta e costas. Nestas duas últimas ele quebrou as marcas sul-americanas. No borboleta, nadando em 1m59s00, ele derrotou, numa tacada, o americano Pablo Morales e o venezuelano Rafael Vidal, ambos altamente cotados para o pódio olímpico da prova no ano seguinte, e perdeu o ouro por 15 centésimos. No costas, nadando em 2m02s85, finalmente ele superava o melhor de Djan, por 24 centésimos. A partir de então, o andradinense passaria a deter cinco recordes sul-americanos individuais contra três que ainda perduravam do veterano Djan. Mas apesar de toda nata da equipe americana estar presente em Caracas, entre eles Lundquist, Morales, Rowdy Gaines, Rick Carey, Kostoff, Bruce Hayes e Bill Barrett, uma ausência tornou a competição um tanto quanto mais fácil para Prado, a do canadense Baumann.
Outro brasileiro que participou tanto do Universíade, no Canadá, como do Pan, na Venezuela, foi o fundista Marcelo Jucá. Em Caracas, o rubro-negro teve, talvez, a melhor competição de sua vida. Ficou com o bronze nos 400m livre, nadando pra 3m55s66, e a prata nos 1500m, com o tempo de 15m33s01, vencendo o americano Mike O’Brien, futuro campeão olímpico da prova, em LA, no ano seguinte. Fora as de Prado e Jucá, não houve qualquer outra medalha individual brasileira no Pan.
Durante os Jogos, um velho problema voltou a assombrar os brasileiros, a questão logística da acomodação. A Vila Olímpica, construída para o Pan, não estava totalmente pronta e, além disso, estava situada a 90 minutos da piscina de competição. O status de recordista mundial e a tarimba adquirida no ano anterior, em Guayaquil, devem ter ajudado nosso campeão. Acomodaram o Prado num Hilton, vizinho à piscina. Depois extenderam o benefício para outros finalistas brasileiros. Mas parece que estas medidas não foram função de um incremento no orçamento investido nos atletas. Os quartos no Hilton tinham sido vagos por algum orgão de imprensa.
No ano seguinte, na olimpíada em Los Angeles, o traslado entre acomodação, na UCLA, e piscina de competição, na USC, voltou a pesar para aqueles que almejavam descansar entre eliminatórias e finais. O pedido foi feito, para o COB, para a disponibilização de um quarto de hotel em local conveniente, pra quem se classificasse para as finais. Tendo seu requerimento prontamente negado, Prado acionou uns amigos, nadadores mexicanos e colegas de universidade, pedindo o quarto deles emprestado, por algumas horas, antes da final dos 400m medley. Quando assistimos aquela batalha por aquele que teria sido o único ouro olímpico da história da natação brasileira, não estávamos cientes do que mais havia se passado nos bastidores até o momento de largada da prova.
ALA e DLA – Antes e Depois de Los Angeles
Já descrevi a final olímpica dos 400m medley em outro artigo, “A Sobrevivência dos Baixinhos na Natação”, (www.bestswimming.com.br/conteudo.php?id=8880). Prado não tinha medo de ninguém, incluso o Baumann, e entrou pra vencer. Sua determinação era tal que o resultado adverso, simplesmente uma prata olímpica, sonho de qualquer nadador, o deixou psicologicamente abatido. Em Los Angeles, depois dos 400m medley, ele ainda nadou todas suas outras provas. Ainda brigou, da raia 1, numa final dos 200m costas, conquistando a quarta colocação. Se recusou a participar das então chamadas “Finais de Consolação”, disputas da nona à décima-sexta colocação, tanto nos 200m borboleta como nos 200m medley. Piorou seus tempos nas três provas, contrariamente a sua boa melhora nos 400m medley. Não seria exagero dizer que ele entrou numa espécie de depressão pós-400m medley.
1985 foi o último ano que o Prado levou a natação, enquanto nadador, bastante a sério. Ainda venceu o campeonato universitário americano, NCAA, e fez bonito num Universíade repleto de estrelas, em Kobe, Japão. Lá no oriente, nadou perto do seu melhor em suas quatro provas de sempre. Venceu os 400m medley, com 4m19s83, pegou o bronze nos 200m medely, e ficou em quarto nos 200m borboleta e costas. Por outro lado, também em Kobe, perdeu para sempre seu recorde nacional dos 100m borboleta, o novo titular da marca sendo Marcelo Jucá, com 56s19. Este foi o único recorde brasileiro que o rubro-negro possuiu em toda sua vida.
Em 1986 o Brasil começou a sumir do mapa da natação mundial. Tal fenômeno não ocorria fazia 20 anos, desde o aparecimento de Fiolo no cenário global com sua performance estelar no Pan de 67, no Canadá. No Mundial de Madrid, em agosto de 86, Prado foi o único finalista brasileiro na competição, com um tanto decadente sétimo lugar nos 400m medley, sua única prova na competição, em 4m26s00. Quem conviveu com o Prado naqueles dias na Espanha constatou que o campeão mundial não estava mais lá, não era mais aquele. Menos mal que o reinado do húngaro Tamas Darnyi se iniciava ali, e o mesmo derrotou o canadense Baumann nas duas provas de medley durante a competição, ativando, para todos os efeitos, a aposentadoria do adversário de Prado. As únicas participações relevantes do Brasil na competição foram os recordes nacionais de Cícero Tortelli e Patrícia Amorim, nos 100m peito e 800m livre, respectivamente.
No começo de 87, meu irmão pegou um vôo para os States e deu de cara com o Prado na sua fileira no avião. O ídolo nadador bateu um papo com o seu admirador. Mas o que chamou a atenção do meu brother naquela viagem foi o quão desconfortável Prado estava com sua condição de estrela. Às tantas, com paúra de ser reconhecido, Prado previu o pior e maldisse o comandante. Não deu outra. Em instantes foi anunciado pelos autofalantes da aeronave: “Senhoras e senhores passageiros, temos o prazer de anunciar a presença em nosso vôo do grande nadador ...”
Depois, no decorrer de 87, num honrado esforço de se colocar de volta em forma, Prado voltou a nadar bem, quase no seu melhor. Foi ao Pan de Indianápolis, Estados Unidos, e descolou uma prata nos 200m costas e um bronze nos 200m medley. Falou em treinar para a olimpíada em Seoul, Córeia do Sul, no ano seguinte. Mas uma hepatite no começo de 88 antecipou uma realidade inevitável. Era hora de dependurar a sunga. Assim como o outro nadador recordista mundial e medalhista olímpico da região de Andradina, no longínquo oeste paulista, Manoel dos Santos, Prado se despediu da piscina competitiva ao completar 23 anos.
Aqueles eram anos em que os incentivos à longevidade na natação ainda eram muito escassos. Mas pra quem conheceu e competiu contra o Prado desde seus sete anos de idade, pra quem viu o furor com que ele galgou todas as etapas da competição mirim, petiz, infantil, juvenil A e B, pra quem acompanhou a velocidade a jato com que ele conquistou, ainda garoto, Mission Viejo, Mark Schubert e a condição de melhor do mundo, pra esta pessoa, aquele 30 de julho de 1984, em Los Angeles, na piscina da University of Southern California, foi um divisor de águas, um divisor de carreira de nadador de um super atleta que nunca mais foi o mesmo. Tal foi a consequência na vida de alguém que subiu no bloco de largada olímpico para vencer e não aceitar qualquer outro resultado. E aquela estória de que o importante é ter a sensação de que se fez o melhor possível, simplesmente não bastou neste caso.
Para a próxima semana, começo uma pausa no “Arquivo Histórico” e me junto ao quadro de comentaristas do Bestswimming cobrindo Beijing.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil e assina a coluna Arquivo Histórico do Bestswimming.
 
 

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Daniel Takata Gomes comentou em 1/08/2008, 20:34:

Sensacional Pedro! Meus parabéns!

Rodrigo Guedes comentou em 1/08/2008, 23:00:

Pedro, suas histórias são um tesouro para nós, nadadores, ex-nadadores e, acima de tudo, apaixonados pela natação...

Na minha modesta opinião, Ricardo Prado é O CARA!

Pedro Valadares comentou em 2/12/2009, 0:34:

Assino em baixo o comentário do Rodrigo Guedes. Suas colunas são um tesouro. E são excelentemente escritas! Parabéns!

Fabricio Lima comentou em 11/06/2011, 15:58:

Acompanhei a Natação Nas Olímpiadas De Los Angeles- 84 e na minha opinião a grande estrela desses jogos foi o Já Falecido Canadense Victor Davis...e foi e sempre será o MELHOR.