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ESPECIAISEU ESTAVA LÁ!A EXPERIÊNCIA DE COMENTAR OS JOGOS DE BEIJING PELO SPORTV
Alex Pussieldi Foi fevereiro passado quando recebi uma ligação de um jornalista amigo meu. Guilherme Rosenguini, ex-nadador, e talvez um dos mais bem preparados jornalistas que cobrem natação no Brasil. Guilherme me fazia uma proposta de atuar no SporTV durante os Jogos Olímpicos de Beijing. A primeira impressão foi surpresa, mas depois o entusiasmo tomou conta da grande oportunidade. Desde então, trocamos emails e telefonemas tentando resolver aquele que seria o maior problema de todos: a credencial olímpica.
Como Head Coach do Kuwait, e tendo dois atletas de outros países também selecionados, a credencial de treinador não seria problema, porém o ideal era ter a credencial de imprensa que me daria acesso as áreas de trabalho e podendo estrear no SporTV. Desde o Pan de 2007, o jornalista José Alberto Andrade da Rádio Gaúcha já havia me convidado para atuar pela empresa RBS na cobertura como integrante da equipe em Beijing. Assim, o que não faltava era oportunidade.
Passam os meses e vem os problemas. Guilherme Rosenguini foi o primeiro a dar o grito, grande parte das credenciais da Globo haviam sido recusadas. José Alberto Andrade foi o segundo, furou! Eu já havia dado a vaga de treinador do Kuwait ao técnico da universidade onde o meu atleta estava, e a outra vaga de um dos meus atletas ao treinador que trabalhava comigo no Pine Crest. Resumindo, depois de ter a possibilidade de quatro credenciais, viajei para Beijing sem nenhuma.
O investimento da Best Swimming em cobrir os Jogos Olímpicos foi outro projeto de grande empenho. Primeiro fizemos um contrato de patrocínio com a Water Planet e depois uma viagem de reconhecimento de terreno, desenvolvimento de logística e projeção da cobertura foi feita em janeiro. Conheci as sedes, as distâncias, os costumes. Fiz planos, metas e objetivos traçados para uma cobertura que seria inédita, tanto para mim, como para um website de natação.
Quando cheguei a Beijing em agosto, já conhecia tudo. Já tinha ido na Muralha, na Cidade Proibida, já tinha comido de tudo e comprado muamba. Assim, agora, só me restava trabalhar. A última oportunidade de credencial viria com o Kuwait, onde um pedido junto ao Comitê Olímpico Internacional já tinha sido feita.
A natação começava no dia 9 de agosto, um dia após a abertura dos Jogos, e eu tirei foto no dia 8, na noite anterior. Guilherme e eu trocamos pelo menos umas 30 ligações do tipo: “Ja chegou?”, e outras 40 do tipo “Ainda não”.
A competição de natação começou na noite de 9 de agosto e eu não tinha conseguido nada. Fiquei no hotel onde nem na TV as provass passaram ao vivo. Do meu lado estava o treinador Flávio Lopes de Daynara de Paula que também vivia sofrimento parecido pela falta de ingressos não pôde ver a estréia de sua atleta em Jogos Olímpicos.
O dia seguinte seria o dia de receber a tal credencial. Guilherme me ligou após o encerramento da natação para dizer que no dia seguinte, com credencial ou não eu estaria dentro dos estúdios da Globo para minha estréia. E foi de lá que trabalhei a primeira etapa final e também a segunda eliminatória. Não preciso dizer o quanto estava de nervoso afinal, mesmo já tendo trabalhado anos em rádio, nunca havia tido a oportunidade de trabalhar no microfone. A estréia foi nervosa e achei que tinha de cortar o narrador para entrar. Como eles estavam na piscina, eu primeiro tinha de chamá-los e depois entrar. Atropelei várias vezes e mesmo assim o pessoal elogiou ao final.
O pessoal da técnica e de produção do SporTV foi fantástico. Sempre assistindo, sempre com críticas construtivas e um excelente espírito. São pessoas que varam a noite trabalhando, talvez durante toda a cobertura não tenham dormido mais do que poucas horas ao dia.
Ruim mesmo é o tal do retorno. Falar e ouvir a sua própria voz com segundos de atraso confunde a qualquer um, principalmente se você é estreante e está nervoso, neste caso eu!
A tão desejada credencial saiu no dia seguinte. Ao recebe-la tive uma surpresa. Ganhei a melhor credencial possível. Era uma espécie de autoridade do Comitê Olímpico Internacional, acesso livre e liberado a todos os lugares do Water Cube, todos os complexos esportivos, eu falei todos os esportes. E mais, na tribuna de honra, com direito a comida e bebida grátis (cerveja inclusa). A credencial era tão boa, mas tão boa que nem eu sabia o que podia fazer com ela. Demorei mais de uma semana para descobrir que tinha direito a carro a disposição para o transporte interno entre as praças esportivas, o hotel e até o caminho para o aeroporto.
De credencial na mão, lá fui eu fazer a minha estréia no Water Cube. Uma mes a minúscula, localizada bem alta na arquibancada do Cubo, onde estavam um computador com as informações oficiais no lado esquerdo, um monitor de TV no lado direito. Lá, sentavam eu, os narradores Milton Leite e Luiz Carlos Júnior que se alternavam e Guilherme Rosenguini. Os três, lado a lado, mal dava para abrir os braços, mas o entusiasmo superava tudo.
Os narradores do SporTV merecem um capítulo especial nesta história. Ambos são excelentes. Pegam as coisas fáceis, são bem humorados, muito profissionais e estavam ali dispostos a fazer o melhor possível. O Guilherme uma vez me revelou que os narradores tem uma facilidade para pegar as coisas fáceis, e os dois mostraram isso com precisão. E olha que eles terminavam a natação e saíam correndo para volei de praia, judô e por aí vai. Energia pura e muita adrenalina.
Meu dia a dia era puxado, muito puxado. Acordar as quatro da manhã para estudar o dia não era fácil. Nos primeiros dias, Flávio Lopes, o Flavinho do SERC estava dormindo lá no quarto. Ele nem se incomodava pois já sabia que eu iria fazer o meu roteiro para o dia. Anotar, pesquisar, estudar e escrever o que seria a final daquela manhã, escrever para a Best Swimming e sair para o Water Cube. Por alguns dias tive de ir até o Estúdio da Globo para participar do programa que antecedia a transmissão. Noite tarde no Brasil, estávamos começando o dia por aqui.
Quando chegava ao Water Cube sempre dava o meu “rolé”. Depois de anotar as informações estatísticas no hotel, agora era horar de conversar com as estrelas. Papos com treinadores e nadadores, brasileiros e estrangeiros era um jeito divertido de coletar informações. Foi aí que descobria as escalações dos revezamentos, as estratégias de prova e até mesmo opiniões que acabavam em grandes informações para o público.
A cobertura das finais era bem animado e corrido. A instrução era dar a prioridade ao narrador e sei que várias vezes acabei falando demais. Era tanta informação, tanta vontade de passar algo para o público que a gente acaba ser perdendo. Também tinha uma preocupação, muito grande por sinal. Não queria ser demasiadamente técnico, fazer com que nosso esporte ficasse difícil de ser compreendido. Queria passar informações boas e fáceis de serem digeridas. Foi bom demais trabalhar com o Guilherme que sabia do assunto e também entrou no mesmo rumo.
Vivenciar este lado de fora você vê coisas que não passam na TV. Vi Amanda Beard chorando muito decepcionada com seu resultado, ou um Tae Hwan Park sem ligar para o mau resultado dos 1500 livre que ele não gosta de nadar. E que tal os jogadores de basquete da NBA dando em cima das nadadoras americanas, até mesmo na mamãe Dara Torres.
Terminavam as finais, era correr para a piscina de soltura. Conversar com quem ainda estivesse por lá. Depois rolavam algumas horas de intervalo. Era a hora de atualizar a Best Swimming, a hora de pesquisar novamente e se preparar para as eliminatórias.
A semana olímpica passou rápido. Foram sete dias de muita emoção e muita satisfação. Para quem viu e prestou a atenção na transmissão dos 100 livre masculino viu que o Coach Alex perdeu a compostura na chegada do Cielo. Gritei um Brasil que não era para estar ali. Mas quem consegue se controlar. Eu não.
No dia dos 50 livre então, aí não foi só eu. Eu, Milton Leite e Guilherme Rosenguini transmitimos a prova em pé. Prometi que iria me controlar mas na chegada não agüentei novamente e lá vai o grito de novo. Cielo! Pior mesmo viria depois. No hino já ensaiei um choro. Quando Cielo desabou eu fui com ele. Até tirei onda que todo mundo estava chorando e o Milton me entregou no ar.
Bom mesmo foi a comemoração da seleção brasileira. Na volta semi-olímpica foi Cielo o primeiro a quebrar o protocolo. Os nadadores e treinadores do Brasil pulavam feito macacos animados. Um pequeno sinal de convite era o que bastava para todo mundo invadir. Fomos os únicos que fizeram isso, com todo orgulho.
Na cobertur a da Globo, Gustavo Borges, o comentarista pediu autorização no ar para Galvão Bueno para ir lá tirar uma foto. Gustavo foi até o parapeito e não agüentou, se jogou lá de cima. Abraçou Cielo e foi tirado de lá antes que a polícia chegasse. Já pensou?
No dia dos 100 livre eu desci e esperei por Cielo. Tiramos fotos e até coloquei a medalha no peito. No dia dos 50 esperei também mas desta vez não deu nem para falar com ele. Nem abraço, nem foto, muito menos a medalha no meu pescoço.
Ao final da competição veio aquela melancolia. Milton Leite e Luis Carlos Júnior trouxeram suas máquinas e fizeram questão de tirar foto de nossa equipe. O próprio Milton vivia durante a transmissão batendo uma ali, outra aqui, um mestre da narração que deslumbrado tentava passar ao máximo o que vivenciávamos.
Participar da cobertura olímpica do SporTV foi uma honra. Uma experiência nova e que gerou milhões de emails, centenas de telefonemas e até hoje tem gente que manda os parabéns. Pouca gente sabe que para mim foi ainda melhor. Vivenciar tudo isso foi uma honra.
A natação no Brasil ganhou um espaço que jamais se imaginava que seria possível. E a intenção do SporTV é continuar investindo cada vez mais em nosso esporte. Se Beijing foi bom, Roma vai ser ainda melhor. E desde já posso anunciar, já estou escalado!
ALEX PUSSIELDI, comentarista (estreante) do SporTV em Beijing
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